“Quando os portões do extinto Parque Nacional de
Sete Quedas se fecharem hoje, às 18h, as Sete Quedas
desaparecerão dos roteiros turísticos. A partir de
amanhã, apenas poucos funcionários e operários da
Itaipu Binacional poderão entrar no parque e
contemplar, da terra, uma das principais belezas
naturais do país, condenada ao desaparecimento
quando foi aprovado o projeto da hidrelétrica no rio
Paraná.”
O acontecimento arrasou a economia local, dependente do turismo, e teve
como consequência o encolhimento da cidade nas décadas seguintes.
Passados 35 anos, ela ainda tenta se reerguer.
Hotéis e restaurantes faliram, lojas fecharam, e muitos habitantes migraram
para outras localidades. A população da cidade, segundo moradores, chegava
a dobrar em finais de semana devido ao turismo. Sem Sete Quedas, muitos
ficaram sem ter o que fazer e foram embora.
Os saltos deixaram de existir devido à construção da hidrelétrica de Itaipu,
que inundou totalmente o local.
A agonia do fim do atrativo já era sentida em 1973, quando foi assinado o
tratado de Itaipu, com o uso do potencial hidrelétrico do rio Paraná. Em 13 de
outubro de 1982, a cidade viveu um autêntico luto, com o fechamento das
comportas de Itaipu e o início do alagamento da região das quedas.
“Dia 27 [14 dias depois], as Sete
Quedas já estavam totalmente
cobertas pela água. É um trauma na
história da cidade. Embora já se
soubesse que elas seriam alagadas, foi
muito rápido”, diz o memorialista
Cristian Edgar Aguazo.
Enquanto em 1970 Guaíra tinha
32.876 habitantes, segundo o IBGE
(Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística), dez anos depois, já com
Itaipu em construção, caiu para
30.012. Em 2000, reduziu mais
(28.659).
Neste ano, atingiu 32.974 e voltou a
ter a população de 47 anos atrás.
O trecho do rio Paraná onde as quedas estão submersas –a maioria delas fica do lado
paraguaio, em Salto del Guairá. O local é de fácil identificação por moradores,
por ficar próximo a torres de transmissão de energia elétrica, 20 m abaixo do
nível médio do rio nesta época do ano, segundo eles.
DRAMA
Não bastasse o trauma da perda do principal motor da economia local, uma
tragédia abalou o último ano de visitação às Sete Quedas.
Com o anúncio do alagamento, o local passou a receber ainda mais turistas
que o habitual e, na manhã de 17 de janeiro de 1982, um domingo, cabos que
sustentavam uma ponte se romperam e ao menos 29 pessoas morreram
levadas pela água.
A tragédia poderia ser ainda maior não fosse a atuação de João Lima Morais,
62, o João Mandi –em alusão a uma espécie de peixe. Ao saber do acidente,
foi ao local e se jogou na forte correnteza para tentar resgatar as pessoas que
encontrava. Conseguiu salvar cinco mulheres e um homem.
“Como anunciaram o final, subiu muito o número de pessoas. Antes passavam
de três a quatro por vez na ponte, mas depois chegou a 60, 70 pessoas. Sem
manutenção adequada, deu nisso.”
Corretor imobiliário, ele ficou conhecido como “herói de Guaíra”. “Na hora a
gente só quer saber de ajudar. Dominava bem a água.”
Um resquício do que havia no local foi visto por Aguazo em 2001, quando o
país enfrentou racionamento de energia elétrica.
Com o baixo nível dos rios, foi possível ver as pedras que cercavam os saltos.
COMPENSAÇÃO
Municípios que tiveram áreas submersas recebem royalties
proporcionalmente à área atingida e à quantidade de energia gerada –14
cidades paranaenses e Mundo Novo (MS) são beneficiadas.
Guaíra deve receber neste ano, segundo o prefeito Heraldo Trento (DEM),
cerca de R$ 14 milhões, para um Orçamento que deve chegar a R$ 95
milhões. O pagamento é alvo de dupla contestação da prefeitura, por ser
temporário (previsto para mais cinco anos) e referente apenas à área alagada,
não ao sumiço do atrativo turístico.
“Os municípios vão morrer se não houver renovação dos royalties. E fomos
lesados por perdermos as Sete Quedas. Na rediscussão, talvez consigamos
entrar nesse tema. Sofremos um baque econômico e psicológico. Arrancaram
nosso motor, nossa alma”, disse o prefeito.
Atualmente, restaurantes, bares e hotéis voltaram a ser vistos por ali,
especialmente devido ao movimento do turismo de compras na paraguaia
Salto del Guairá.
FOLHA





