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O MAIOR CRIME AMBIENTAL DE TODOS OS TEMPOS

A Itaipu Binacional distribui royalties aos municípios lindeiros para compensar o enorme prejuízo causado pelo desaparecimento das Sete Quedas. Guaíra e Mundo Novo se beneficiam desses recursos, mas a Natureza jamais perdoará tamanha barbárie praticada em nome do progresso.

Salto de Sete Quedas também chamado Salto Guaíra foi a maior cachoeira do mundo em volume de água, até o seu desaparecimento com a formação do lago da Usina hidrelétrica de Itaipu. No entanto resquícios delas aparecem quando o nível de água da usina está baixo. Nos meses de novembro e dezembro de 2012 e em janeiro de 2013 uma pequena parte de um dos saltos e grande parte das pedras apareceram no rio. Apesar do nome, eram constituídas por 19 cachoeiras principais, sendo agrupadas em sete grupos de quedas. Recordistas mundiais em volume d’água, as Sete Quedas eram o principal atrativo turístico de Guaíra, cidade que, à época, chegou a ter 60 mil habitantes, rivalizando em importância com as cataratas de Foz do Iguaçu. Naquele tempo, Guaíra era um dos destinos brasileiros mais visitados por estrangeiros.

Quando da construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu, ocorreu uma super visitação ao parque nacional das sete quedas. Milhares de pessoas, de todas as partes do Brasil e do mundo, iam a Guaíra para presenciar os últimos dias das Sete Quedas. Devido à superlotação, em 17 de Janeiro de 1982 ocorreu a queda da ponte Presidente Roosevelt, que dava acesso ao salto 19, tendo como consequência a morte de 32 pessoas.

No dia 13 de outubro de 1982, o fechamento das comportas do Canal de Desvio de Itaipu começou a sepultar, com as águas barrentas do lago artificial, um dos maiores espetáculos da face da Terra: as Sete Quedas do Rio Paraná ou “Saltos del Guaíra”.

Durante a inundação, os moradores de Guaíra iam até a beira do rio para se despedirem das Sete Quedas. Finalmente, em 27 de outubro de 1982 o lago estava formado e as quedas, submersas. Nos dias seguintes ao alagamento, apenas as copas das árvores ficavam acima do nível do rio. O monumental Salto 14 ficava à margem direita do lendário Rio Paraná, e pertencia aos mundonovenses. Com exceção dos royalties, que nem sempre são bem aplicados, a Itaipu Binacional não ofereceu nada para Mundo Novo que pudesse compensar a grande perda que sofreu.

Quando se anunciava o fechamento das comportas para a criação do lago da hidrelétrica de Itaipu, Carlos Drummond de Andrade publicou um poema no Jornal do Brasil.

Sete quedas por mim passaram,e todas sete se esvaíram. Cessa o estrondo das cachoeiras, e com ele a memória dos índios, pulverizada, já não desperta o mínimo arrepio. Aos mortos espanhóis, aos mortos bandeirantes, aos apagados fogos de Ciudad Real de Guaira vão juntar-se os sete fantasmas das águas assassinadas por mão do homem, dono do planeta. Aqui outrora retumbaram vozes da natureza imaginosa, fértil em teatrais encenações de sonhos aos homens ofertadas sem contrato.

E desfaz-se por ingrata intervenção de tecnocratas. Aqui sete visões, sete esculturas de líquido perfil dissolvem-se entre cálculos computadorizados de um país que vai deixando de ser humano para tornar-se empresa gélida, mais nada. Faz-se do movimento uma represa, da agitação faz-se um silêncio empresarial, de hidrelétrico projeto. Vamos oferecer todo o conforto que luz e força tarifadas.

Vinde povos estranhos, vinde irmãos brasileiros de todos os semblantes, vinde ver e guardar não mais a obra de arte natural hoje cartão-postal a cores, melancólico, mas seu espectro ainda rorejante de irisadas pérolas de espuma e raiva, passando, circunvoando, entre pontes pênseis destruídas e o inútil pranto das coisas, sem acordar nenhum remorso, nenhuma culpa ardente e confessada.” (Texto publicado no Jornal do Brasil no dia 9 de setembro de 1982)

 

 

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