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DOURADOS SE DESPEDE DE JOSÉ ELIAS MOREIRA. SEM DÚVIDA, O MELHOR PREFEITO DA HISTÓRIA DO MNICÍPIO

Ex-prefeito Zé Elias morreu aos 82 anos nesta madrugada em São Paulo, onde tratava de um câncer de próstata

Apurada a última urna de Campo Grande, a que selou a vitória do emedebista Wilson Barbosa Martins para o governo do estado, o engenheiro agrônomo José Elias Moreira deixou sua residência, na rua Monte Alegre, em Dourados, em companhia do fiel escudeiro Júlio Marques de Almeida, para retornar à capital do estado, onde pretendia fixar residência. Estava inconformado com a resposta, nas urnas, da população de Dourados e região, ao grande trabalho que havia realizado até o início daquele 1982, quando desincompatibilizou-se da prefeitura para disputar o governo do estado. Neste 15 de março de 2023 Zé Elias entra, definitivamente, para a história, até aqui, como o maior e mais ousado prefeito da terra de seu Marcelino.

lead (abertura) deste texto começou a ser pensado ontem à noite, depois de um questionamento do cunhado de Zé Elias, o ex-presidente da Assembleia Legislativa, Walter Benedito Carneiro, exatamente sobre este tema: “Quando será que teremos nas eleições estadual o slogan” O interior vai governar?”. Em respeito à morte do único prefeito douradense que teve peito para isso, deixemos o tema para depois de passado o luto pela morte do ex-prefeito e ex-deputado federal Constituinte.

Ainda bem que São Benedito intuiu Walter Carneiro a reabrir essa ferida, pois seria muito difícil, para este modesto escrevinhador dos cafundós de judas, em que conte toda a experiência de 53 anos de lida, construir um lead falando da morte do grande amigo e companheiro de biritas de longa data, de quem fui assessor em Brasília, durante a Assembleia Nacional Constituinte. Pelo sim pelo não, a espiritualidade também me preparou para este momento que sempre temi. Quando o primeiro arauto apareceu com a notícia no WhatsApp, recém-acordado, estava, ainda, tentando entender o sonho que acabara de ter. Como Zé Elias desencarnou na madrugada, bem provável que ele próprio estivesse querendo me avisar. Eu estava em sua residência, na mesma varanda onde gostava de nos receber para longos bate-papos e grandes festanças. Desta vez, não como convidado para comer ou beber, mas na cozinha, ajudando sua esposa, dona Adenil, a preparar uma comilança daquelas. O que jamais poderia imaginar é que se tratava da preparação para a sua despedida. O seu velório.

Ainda bem, também, que mal começo a falar de Zé Elias e já dá pra ir encerrando, até pela emoção do momento. Até porque, todo o espaço destinado a este tipo de texto seria pequeno para narrar toda a trajetória política e administrativa deste que, como já escrevi enésimas vezes, foi o maior prefeito de nossa história. História, aliás, que conto em meu segundo livro, que só não foi para o prelo ainda por conta da pandemia da Covid.

Como não poderia deixar de ser, como insubordinado do jornalismo que sempre fui, tive brigas homéricas também com Zé Elias. Em sua primeira tentativa de ser prefeito, quando perdeu para João Totó Câmara, não estava ainda enfronhado na política, mas torci muito por ele. Na segunda, já amigo, mas como estava assessorando o prefeito Totó Câmara, fiz campanha para Lauro Machado.

No início de sua administração, como combativo repórter da Rádio Clube de Dourados, dei a ele um refresco nos primeiros meses, quando começava a rasgar a cidade pelos quatro cantos para implantar galerias de águas pluviais e esgoto, com o argumento de que “era melhor enterrar tubos do que vidas”. O pau começou a comer quando ele trouxe Jaime Lerner, já à época reconhecido como um dos maiores arquitetos do planeta, para executar o projeto urbanístico da cidade.  Entrei na onda dos comerciantes revoltados com o estreitamento de ruas e avenidas. E o caldo entornou quando contratou, sem licitação, uma empresa de consultoria (ETON) do Rio de Janeiro para executar o projeto de modernização da administração, com a criação de secretarias, até ali inexistentes. Um dia ele chegou a bater a porta de seu gabinete em minha cara, ante a insistência de uma entrevista. O tempo passou e o filho do seu Quinzito me convenceu do quanto ele estava certo.

Tão certo que, voltando ao questionamento do cunhado Carneirão, renunciou ao mandato (prorrogado para seis anos) de prefeito para disputar a primeira eleição para governador do estado recém-criado. Tinha credenciais de sobra para ser um grande governador. Um exemplo disso, seu trabalho no sistema habitacional, que começou antes, ainda, de ser prefeito, gerenciando a PLANOESTE, uma empresa que construía habitações populares com financiamento do antigo Banco Nacional de Habitação – daí os até hoje populares BNH’s espalhados pela cidade e por toda a região.

Lançado candidato pelo governador Pedro Pedrossian, pelo então PDS, Zé Elias foi mais votado que Wilson Martins em todos os municípios do interior, só perdendo nas urnas de Campo Grande. Sua mágoa com os eleitores douradenses foi porque na cidade em que se notabilizou com grande administrador sua vitória foi pífia. E, o cerne da questão que se arrasta até hoje, ele entendia que se aqui fosse mais bem votado isso se refletiria em toda a região, o que seria suficiente para fazer frente aos votos dos campo-grandenses.

Formado pela Escola Nacional de Agronomia (ENA) do Rio de Janeiro, Zé Elias nasceu em Poços de Caldas (MG). Sua carreira como agrônomo do INDA (atual INCRA) foi alavancada pela implantação de projetos de colonização em toda a região. O radialista e ex-prefeito Jorge Antônio Salomão, da mesma Rádio Clube, foi quem o projetou na política. Por uma dessas ironias da história (vai entender a cabeça do eleitor!), o maior de todos os prefeitos foi também o que mais tentou, e que mais perdeu eleições para esta mesma prefeitura. A primeira tentativa foi contra o até ali maior líder político da região, João Totó Câmara, no início da década de 1970. Depois da vitória contra Lauro Machado, perdeu outras duas eleições, ambas contra Braz Melo. Foi também duas vezes deputado federal e secretário de estado do Meio Ambiente do governador Zeca PT, sujeitando-se a encerrar melancolicamente a carreira com um cargo de terceiro escalão da prefeita Délia Razuk porque tinha um sonho – o de construir um grande aeroporto para Dourados.

Autor da crônica, jornalista Valfrido Silva, liberou a informação sobre o velório e sepultamento do líder douradense. Ele diz no final da tarde de 15 de março: “O corpo do ex-prefeito José Elias Moreira deve chegar em Dourados no final da noite de hoje. O velório ocorrerá a partir das 6 horas desta quinta-feira (16), no PAX Primavera da Rua Hilda Bergo Duarte (antigo Colégio Objetivo 2). O sepultamento está marcado para as 16 horas no Cemitério Santo Antônio de Pádua.”

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