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O hóspede

Tenciono relatar esta história há muitos anos, entretanto, por conhecer as personagens e para não as expor, bem como por vários sentimentos que me tomavam, procrastinei o feito. Agora, penso ser o momento propício para contá-la ainda que seja às pressas e perfunctoriamente.

O casal de professores da rede pública e seus quatro filhos mudaram-se do interior para a capital do Estado e passavam por uma quadra bastante delicada. Angélica, a mãe, lecionava o vernáculo e literatura, ao passo que Joaquim, o pai, trabalhava na Secretaria de Educação. Os rebentos eram estudantes. A vida financeira da família era tormentosa, extremante penosa, e todos os meses fechavam as contas no vermelho. Estipêndios bastante parcimoniosos e rotina repleta de agruras os pautavam. O governo atrasara o pagamento dos proventos dos servidores públicos, e isso, somado à falta de organização e de controle, redundou na perda da casa financiada que tinham uma vez que o banco levou o imóvel a leilão. Perderam o pouco patrimônio que lhes restava. Não tinham sequer telefone, aparelho de som, automóvel, e os sofás eram rasgados, as paredes da residência onde moravam eram infiltradas e tomadas por fendas, retratos de suas vidas espedaçadas, esfaceladas amarfanhadas…

Joaquim entregou-se ao álcool e Angélica sucumbiu à depressão. Os filhos, dois meninos adolescentes e duas garotas, sofriam deveras, pois amavam os pais e os viam desvanecer na incomensurável roleta-russa do destino. Todavia o tempo fluía indiferente a tudo, sem comiseração, anódino, impassível. E justiça e dignidade para eles transmudaram-se em substantivos abstratos, meras classes gramaticais no escólio vertido pela mãe, docente da última flor do Lácio e que amiúde os corrigia nas conjugações verbais, na prosódia e nas entrelinhas do idioma. Aos poucos, foram se acostumando àquela tétrica e sorumbática realidade.

Os filhos sentavam-se todas as tardes em pedaços de tora (toquinhos) que tinham à frente da casa e que usavam como banquinhos. Ali, recebiam amigos e tomavam água gelada com mate e limão – tereré. Angélica aposentou-se e dividia o tempo entre tarefas domésticas e lamúrias enquanto Joaquim era assíduo frequentador do bar da esquina e exímio contador de piadas – provavelmente um meio para derruir suas dores e espantar suas aflições.

De repente, um fato inusitado surgiu: eis que, todos os dias, exatamente na hora do almoço, começou a passar naquela casa um homem que empurrava um carrinho com duas rodas de bicicleta laterais e uma haste traseira, onde ele colocava o papel que recolhia do lixo em vários bairros da cidade e que vendia para coligir um pouquinho de dinheiro. Era um senhor bem idoso, com problemas de visão, cujos olhos pareciam verter um líquido lacrimoso e com resquícios de pus. Andava arqueado, tal qual um súdito das pessoas, talvez por empurrar aquela pesada carroça pela capital durante o dia todo. Sempre estava sem camisa e sem calçado. Seus pés eram rachados e machucados. Mãos muito grossas, calvo, banguela. Pele queimada do sol escaldante. Usava um fraldão para conter, certamente, algum problema intestinal. Falava mansamente e muito baixo; tinha um sorriso esplendoroso, que emanava luz, paz e amor. Sua aparência rude era inversamente proporcional à sua aura. Seu nome era Natalício.

Inicialmente, batia palmas e perguntava se tinha lixo em papel para lhe ser dado. Desde então, como fosse hora da refeição, Angélica lhe servia um prato de comida quentinha, feita com esmero e carinho, um copo de suco de saquinho ou chá-mate gelado. E, nesse diapasão, todos os dias Natalício surgia na hora certa e era igualmente servido e tratado como se fosse um membro daquela família. Angélica, já habituada, quando se aproximava o meio-dia, começava a dizer: “- Tenho que terminar logo de cozinhar, porque o hóspede está chegando!” Assim, Natalício passou a ser chamado naquele húmile tugúrio de uma família espancada pelo destino: o hóspede.

Natalício fez amizade com os meninos e as garotas. Joaquim Júnior era o mais velho e tinha sonhos de “vencer na vida” e ajudar a família. Estudava muito. Luciano era o segundo filho e adorava namorar, sair e era um jovem de extrema pulcritude e encanto. Tamine era a menina mais velha e apreciava música, praticar esportes e fazer travessuras. A caçula entre eles era Soninha que, muito criança ainda, vislumbrava outras garotas do bairro andar de bicicleta e seus olhos cintilavam de desejo de ter uma para si. Certo dia, gritou para sua mãe Angélica que Deus era injusto, porquanto não lhe dera sequer uma bicicleta para andar. Foi severamente repreendida, e Natalício enrubesceu a face, levantou-se e foi embora amealhar lixo para sobreviver.

Cerca de dois anos se passaram nesse ramerrão, até que, num dia 25 de dezembro, Natalício apareceu na hora do almoço sem o seu carrinho de carregar papel reciclável. Estava descalço, de fraldão, sem camisa, sem chinelo, contudo sorria muito, e de sua boca banguela escorria uma baba que ele limpava com o pulso e logo depois levava aos olhos lacrimosos. Trazia consigo uma bicicleta novinha. Chamou Soninha que, acanhada, veio aos seus braços. Apertou-lhe a cabeça junto ao seu peito. Fitou-a e lhe exteriorizou: “-Deus nunca Se esqueceu de você, minha querida! Ele está onde menos se espera, Ele está no tudo e no nada. Ele frequenta o lixo para reconstruir as pessoas e as coisas!” E entregou-lhe o regalo. Natalício ainda enfiou a mão na fralda e retirou um papel e pontuou: “-Eu não roubei. Esta aqui é a nota fiscal. Eu economizei o ano todo pra dar essa bicicleta pra você.” Todos choravam assistindo àquela cena. O hóspede despediu-se, sumiu aos poucos como um anjo sem asas e nunca mais regressou. Mas ele mudou definitivamente a vida daquela família, e o natal nunca mais foi o mesmo…

 

João Linhares* – Integrante da Academia Maçônica de Letras de MS. Promotor de Justiça desde 2000. Mestre em Garantismo e Processo Penal pela Universidade de Girona, Espanha. Especialista em Jurisdição Constitucional e Direitos Fundamentais pela PUC – RJ.

João Linhares

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