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Maçonaria e Compromisso Social

A idéia de abordar este tema surgiu de uma pergunta e uma resposta do catecismo do Aprendiz Maçom, no Ritual do 1º Grau - 1º Volume da Coleção da Maçonaria Simbólica do Rito Adonhiramita, editada pelo Sublime Grande Ca­pítulo de Santa Catarina.
À pergunta - "Que é um Maçam?", dá­-se a seguinte resposta:
- "É um homem livre, fiel às leis, amigo dos governantes, quando eles são virtuosos. "Foi justamente a última parte da res­posta - "amigo dos governantes, quando eles são virtuosos" - que mo­tivou o exame de algumas peculiarida­des da Ordem Maçônica, especialmente das circunstâncias históricas existentes nos séculos XVII e XVIII.
Inicialmente, o interesse está centrado nas influências das correntes filosóficas iluministas na formulação do ideário da maçonaria especulativa, eis que o século XVIII foi pródigo no surgimento de ritos: o Moderno ou Fran­cês, em 1761, o Schrõder, em 1766, o de York em 1777, além do próprio Adonhiramita. Já o Rito Escocês Antigo e Aceito, como é hoje praticado, data de 31de maio de 1801, tendo surgido na ci­dade norte-americana de Charleston, na Carolina do Sul [as opiniões correntes sobre a origem do REAA são diferentes da do autor. Depois, vamos procurar contrastar alguns preceitos fundamentais da maço­naria anglo-saxã, a partir da Constitui­ção de Anderson, com a maçonaria fran­cesa, buscando reforçar o caráter "soci­al" da nossa Instituição. Outro pressuposto de orientação, adotado no presente trabalho, parte do princípio de que toda e qualquer insti­tuição humana tem a sua existência justificada a partir do momento em que se orienta para o bem-estar da coletivi­dade em que está inserida. Logicamen­te, isto também prevalece em relação à Maçonaria, não apenas internamente, como também para consumo externo, isto é, em relação ao mundo profano.

A INFLUÊNCIA DO ILUMINISMO

Durante quase mil anos, a Europa medieval passou por lentas mudanças econômicas e políticas que, no entanto, prepararam o caminho da modernidade. Contudo, somente em meados do século XIX a Idade Média passou a ser consi­derada como etapa necessária da histó­ria da civilização ocidental, deixando de ser considerada como um período de decadência e obscurantismo.
Chama-se Idade Média o período da história européia compreendido aproxi­madamente entre a queda do Império Romano do Ocidente (séc.V) e o período histórico determinado pela afirmação do capitalismo sobre o modo de produção feudal, o florescimento da cultura renascentista e os grandes descobrimen­tos. A Idade Média européia divide-se em duas etapas bem distintas: a alta Idade Média, que vai da formação dos reinos germânicos, a partir do século V, até a consolidação do feudalismo, entre os séculos IX e XII; e a baixa Idade Mé­dia, que vai até o século XV, caracteri­zada pelo crescimento das cidades, a expansão territorial e o florescimento do comércio.Basicamente, a civilização medieval pode ser caracterizada como a reunião Ide três elementos: o legado da antigui­dade greco-latina, a contribuição dos povos germânicos e a religião cristã. Já o Iluminismo é compreendido como uma linha filosófica caracteriza­da pelo empenho em estender a crítica e o guia da razão em todos os campos da experiência humana.
O Iluminismo envolve três aspectos diferentes, embora interligados:
1 - a extensão da crítica a toda e qualquer crença e conhecimento, sem exceção;
2 - a realização de um conhecimento que, para ser aberto à crítica, inclua e orga­nize os instrumentos para a própria correção;
3 - o uso efetivo, em todos os campos, do conhecimento assim alcan­çado, com a finalidade de melhorar a vida una e associativa dos homens. O Iluminismo não é somente compro­misso crítico da razão: é ainda o com­promisso de servir-se da razão e dos re­sultados que ela pode proporcionar, nos vários campos de pesquisa, para melho­rar a vida particular e associativa de cada homem. Representou uma espécie de revolu­ção intelectual - iniciada, segundo al­guns autores, no ano de 1715, com a morte de Luís XIV -, cujas causas resi­dem principalmente na prosperidade crescente da classe média, na amplia­ção dos horizontes intelectuais, em decorrência do descobrimento de novos continentes e de culturas exóticas. Ou­tros autores situam o surgimento do Iluminismo na Inglaterra, em 1680, ten­do na França o seu maior desenvolvi­mento. O século XVIII - também chamado de "século das luzes" ou "Idade da Ra­zão" - é marcado pelo entusiasmo com as pesquisas no campo das ciências na­turais, por um profundo ceticismo em relação à metafísica e à religião, e pela confiança na razão, na evidência e na demonstração racionais. No século anterior (séc. XVII, do empirismo e do racionalismo), o inglês John Locke (maçom, 1632-1704), já di­fundira o empirismo (do grego empeiria, que significa "experiência"), perspecti­va filosófica que admite apenas a expe­riência sensível como causa de todos os conhecimentos humanos. Locke atacou com veemência o autoritarismo políti­co, e suas posições influenciaram os pen­sadores franceses - os maçons Montesquieu (1689-1755), Voltaire (1694-1778), Diderot (1713-1784), Sieyes (1748-1836), Rousseau (1712­1778), e também os enciclopedistas d'Alembert (1717-1783) e Condorcet (1743-1794), cujas obras forneceram o lastro teórico da Revolução Francesa. Também eram maçons Talleyrand (1745-1838), Lafayette (1757-1834), Brissot (1754-1793) e Mirabeau (1749­-1791), importantes personagens da Re­volução. Outro empirista, o filósofo escocês David Hume (1711-1776), afirmou que o funcionamento da inteligência, assim como a vida moral, repousa sobre uma espécie de instinto natural, que a refle­xão só pode destruir.
Por outro lado, o irlandês George Berkeley (1685-1753) propõe-se a com­bater a incredulidade e o materialismo. Sua doutrina influenciou sobremaneira David Hume e os idealistas alemães. Para ele, o mundo exterior é formado de puras idéias eternas, que têm origem na inteligência ideal e divina. Seu idea­lismo, bem como as idéias de Jean­-Jacques Rousseau (1712-1778) - que via no progresso social a causa da deca­dência e da corrupção de uma natureza humana que, em si mesma, é inocente, e que pregava o retorno ao estado pri­mitivo (o bom selvagem) -, prenunciam a ideologia romântica do início do sécu­lo XIX.
Oportuno destacar uma particulari­dade de relevante importância no enten­dimento da transição ideológica do sé­culo XVII para o XVIII. Enquanto que no século XVII a mai­or parte dos escritores que se ocuparam de questões políticas e sociais perten­cia à Inglaterra, no século XVIII, ao con­trário, a primazia nesse domínio coube à França. Este fato pode ser ainda considerado como conseqüência da supre­macia intelectual que a França conquis­tou nessa época, nos principais ramos do saber, comparativamente às outras nações da Europa. Outrora, todos os sábios escreviam em latim, e ainda que houvessem escrito uma obra na sua lín­gua mãe, não deixavam de traduzi-Ia imediatamente para a língua latina; no século XVIII, o francês tornou-se a lín­gua mundial. Os livros franceses pene­traram em todas as partes do mundo civilizado. O conhecimento da língua francesa se impôs, então, a todas as per­sonalidades cultas. Entre os séculos XVII e XVIII pro­duziu-se grande transformação na con­cepção do universo, como já referimos.
Importa salientar, ainda, a influên­cia da Renascença e da Reforma, con­tribuindo sobremaneira para o desen­volvimento do espírito crítico.
O Renascimento foi um movimento de renovação intelectual e artística ini­ciado na Itália no século XIV e que atin­giu seu apogeu no século XVI, influen­ciando várias outras regiões da Europa. Ele representou uma fase de alar­gamento dos limites humanos, traduzin­do um novo espírito de investigação que ensejou progressos técnicos e concei­tuais, além de questionamentos religi­osos que abriram caminhos para as re­formas religiosas. O teólogo alemão Martinho Lutero (1483-1546) foi o pioneiro da Reforma Protestante na Europa. Ao desenvolver sua doutrina da justificação pela fé, ele desafiou a hierarquia da Igreja Católi­ca ao colocar em discussão assuntos que diziam respeito ao papel do papado e do sacerdócio, e à necessidade de certos sacramentos e observâncias. Em 1521, ele defendeu sua doutrina diante de Carlos V (1500-58), Imperador do Sacro Império (1519-56) e rei da Espanha (1516-56), mas foi excomungado pelo papa e proscrito pelo Sacro Império Romano. Contudo, sua contestação à Igreja Católica havia sido amplamente difun­dida. Em meados do século XVI, um grande número de governantes alemães e escandinavos havia rompido seus la­ços com Roma e criaram igrejas "luteranas" em seus territórios.
Em síntese, as leituras teológicas de Lutero levaram-no a atacar as doutri­nas católicas fundamentais, entre as quais o celibato clerical e a supremacia papal, exigindo, também, a reforma ra­dical das ordens religiosas. Lutero colo­cou nas portas da igreja do castelo de Wittenberg, em 1517, suas famosas 95 teses, nas quais atacava, entre outros problemas, a venda de indulgências pe­los papas.
Outra conseqüência: a Reforma, pro­vocando a livre discussão dos textos sa­grados, minou-lhes o prestígio. As guerras que assolaram a Europa após a Reforma também ajudaram a enfraquecer os ideais humanistas de harmonia natural e social. Porém, a idéia de racionalidade e a nova visão do mundo difundidas pelo humanismo so­breviveram nos pensadores racionalis­tas e empiristas e formaram a base do Iluminismo. Em nenhuma outra época mostrou a razão humana tanta confiança em si mesma quanto durante o século XVIII. Ela demonstrou o maior desprezo pelas instituições humanas que constituíam a herança de um passado recente, e as considerava como resultado da ignorân­cia e da barbárie. As classes cultas es­tavam convencidas de que a razão humana, livre das trevas da superstição e da ignorância, poderia cedo reformar o mundo e fazer desaparecer inúmeras experiências dolorosas, assim como todos os absurdos e as injustiças.
Um pequeno parêntese. Uma época histórica não corresponde nunca, de uma maneira precisa, a um século de­terminado. Quando se fala do século XVIII, do ponto de vista da cultura e da vida política, faz-se alusão na verdade não ao período compreendido exatamen­te entre os anos de 1701 e 1800, mas antes ao período que vai de 1715 (ano da morte de Luís XIV, como já referi), a 1789, data em que eclodiu a Revolução Francesa. Alguns estudiosos acham con­veniente estendê-lo até 1815, data do fim das guerras napoleônicas.
Fechado o parêntese. Como orientação filosófica predomi­nante no século XVIII, o ideário iluminista apresentou características sutilmente diferenciadas na Alemanha, França, Inglaterra e Escócia, e as Lojas Maçônicas ajudaram a disseminá-lo por toda a Europa. Na Alemanha, o Iluminismo (aufkliirung), que se esten­deu desde meados do século XVII ao co­meço do século XIX, foi um movimento literário e filosófico confinado às univer­sidades. Os escritos de Leibniz (1646-1716) e Kant (1724-1804) debatiam racionalismo e tolerância religiosa no lugar de superstição e repressão. Na França, as idéias iluministas fo­ram partilhadas por filósofos, literatos, I cientistas e pensadores, que estavam unidos em sua crença na supremacia da razão e no desejo de resultados práticos no combate às injustiças e desigualda­des. O movimento contra as crenças e instituições estabelecidas ganhou im­pulso durante o século XVIII, com Voltaire, Rousseau, Turgot (1727-1781), Condorcet e muitos outros. Muitos fo­ram presos em razão de suas convicções, mas por meio da Enciclopédia seus ata­ques ao governo, à Igreja e ao judiciário forneceram a base intelectual para a Revolução Francesa.
O Iluminismo inglês deve sua origem às teorias políticas de Locke e ao exem­plo francês. Thomas Paine (1737-1809), jornalista e político americano nascido na Inglaterra - notável por sua atuação na revolução americana e na conso­lidação da república dos EUA -, um ad­mirador dos franceses, assim como muitos outros escri­tores e poetas, veiculava as idéias iluministas.
A comprovação de que foram muitos os pensadores e filósofos que influíram decisivamente nesse período é avalizada por Gaetano Mosca (1858-1941), profes­sor da Universidade de Roma, na obra História das Doutrinas Políticas, lançada entre nós em fins da década de 1940 (pág. 206), quando afirma que "na história do pensamento político a influ­ência de Rousseau foi ainda maior e mais profunda do que a de Montesquieu. Não somente modelou ela a mentalida­de de seus contemporâneos, como ain­da fez sentir seu efeito, e fortemente, no século seguinte". "Ainda hoje, em ple­no século XXI, vivemos uma atmosfera intelectual mais ou menos impregnada das idéias do filósofo de Genebra. O su­cesso que obtiveram as teses de Rousseau desde sua aparição é explicá­vel pelo fato de que eram justamente estas idéias que a sociedade européia, e especialmente a sociedade francesa, então aguardavam. Nesta época - con­tinua ele - a difusão das idéias novas era encorajada sobretudo por uma as­sociação secreta chamada Franco- Maçonaria. Com o otimismo característico do século XVIII. esta associação se propu­nha atingir uma nova organização soci­al que iria fazer do homem. até aí infe­liz e escravo. um ser livre e feliz". Já Erich Hobsbawn (n. em 1917), historiador britânico contemporâneo, intérprete dos fatos históricos segundo a teoria política marxista, (in Era das Revoluções - 1789/1848, págs. 76/77), evidencia a influência da Maçonaria, afirmando que "a Revolução Francesa não foi feita ou liderada por um partido ou movimento organizado, no sentido moderno, nem por homens que estives­sem tentando levar a cabo um progra­ma estruturado. Nem mesmo chegou a ter 'líderes' do tipo que as revoluções do século XX nos têm apresentado, até o surgimento da figura pós-revolucioná­ria de Napoleão. Não obstante - pros­segue - um surpreendente consenso de idéias gerais entre um grupo social bas­tante coerente deu ao movimento revo­lucionário uma unidade efetiva. O gru­po era a 'burguesia'; suas idéias eram as do liberalismo clássico, conforme formuladas pelos 'filósofos' e 'economistas' e difundidas pela maçonaria e associa­ções informais". Diz ainda Hobsbawn que "em sua forma mais geral, a ideolo­gia de 1789 era a maçônica, expressa com tão sublime inocência na 'Flauta Mágica' de Mozart (1791), uma das pri­meiras grandes obras de arte propagan­dísticas de uma época em que as mais altas realizações artísticas pertenceram tantas vezes à propaganda".A REVOLUÇÃO FRANCESA E A MAÇONARIANa verdade, a história mostra que quase nunca são pacíficas as reivindi­cações do homem comum em face dos homens dirigentes, como se estes, ao assumirem a direção no meio social, se desfizessem da condição humana origi­nária.
Com toda a segurança, podemos afir­mar que Maçons isoladamente ou gru­pos de Maçons tiveram participação sig­nificativa na cristalização das correntes de pensamento que forneceram as ba­ses teóricas para o surgimento de inú­meras revoluções havidas no mundo."Nobres, vós sois o flagelo da socie­dade, como sois também o inimigo da Pátria. Vossos exemplos e vossa moral levaram os costumes a um grau de corrupção nunca antes atingido. Para satisfazer, não vossas paixões, mas vos­sas fantasias, vós os transgredistes, ao ponto de vos permitir comportamentos cujo preço é o cadafalso".
Este texto figurava em um panfleto anônimo, igual a milhares de outros, em circulação principalmente em Paris, acusando a nobreza de corrupção, imo­ralidade, decadência, etc..., nos momen­tos que antecederam a Revolução Fran­cesa de 1789, seguramente um dos acontecimentos mais importantes da histó­ria do mundo ocidental. O alcance de suas conseqüências chega até nós. A 26 de agosto de 1789, a Assembléia Nacional Francesa aprova a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Nela, estão estabelecidos os direitos básicos dos franceses. O preâmbulo da Declaração diz claramente: "conside­rando que a ignorância, a negligência ou o desprezo pelos direitos humanos cons­tituem as causas únicas das desventu­ras públicas e das corrupções do gover­no"... Mais adiante, depois de outras considerações, prossegue o preâmbulo: "Por tais razões, a Assembléia Nacional reconhece e declara, na presença do Ser Supremo, e com a esperança da sua benção e do seu favor, os seguintes direi­tos dos homens e dos cidadãos:
I - Os homens nascem e continuam sempre livres e iguais com respeito aos seus direitos. Por conseguinte, as distin­ções civis somente podem fundar-se na utilidade pública.
II - O fim de todas as associações políticas é a preservação dos direitos naturais e imprescritíveis do homem; e esses direitos são liberdade, proprieda­de, segurança e resistência à opressão. "Portanto, a agitação revolucionária de fins do século XVIII baseou-se na te­oria da igualdade natural de todos os homens e na soberania popular. Eis aí, colocados de forma cristalina, alguns dos postulados do Iluminismo. Essa teoria não reconhecia a autori­dade das monarquias tradicionais e ab­solutistas e a legitimidade dos privilé­gios da nobreza. Alguns estudiosos entendem que a Declaração de Independência dos Esta­dos Unidos - a Declaração de Virgínia, de 1776 - foi e ainda é um documento revolucionário, ao defender a igualdade natural de todos os homens e ao direito de se mudarem os governantes por mei­os pacíficos ou, em caso de resistência, pela força. O maçom Thomas Jefferson foi o autor da Declaração de Indepen­dência, texto em que se encontram reu­nidos os princípios políticos mais rele­vantes, originados na doutrina do direito natural.
Eis os princípios:
1 - o poder reside no povo;
2 - ­todos os homens são iguais perante a lei;
3 - a existência de uma série de direitos inalienáveis da pessoa humana, como a vida, a liberdade, a busca da felicidade e até a rebe­lião contra o governo despótico, ti­rânico.A única finalidade do governo deve ser exatamente a proteção desses direi­tos. A mesma idéia se aplica à Declara­ção dos Direitos do Homem e do Cida­dão da França de 1789. Depois da Re­volução Francesa, a igualdade legal, política e social representou importan­te papel na organização das sociedades modernas. Tais princípios também es­tão claramente expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos, apro­vada por unanimidade em dezembro de 1948 pela Assembléia Geral da Organi­zação das Nações Unidas, em Paris. Ali­ás, já no seu Artigo 1º encontramos a tríade da Revolução Francesa: "Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade".De uso corrente nos séculos XVII e XVIII, a doutrina do Direito Natural estabelecia que os direitos naturais de­vem ser incondicionais, imutáveis e inalienáveis, afirmando-se de modo geral que são os mesmos para todos os homens. Os direitos naturais mais comumente reconhecidos compreendem o direito à vida, à liberdade e à igualda­de.
Paralelamente, dá-se o surgimento de preceitos essenciais para a elabora­ção das normas que regulamentam aorganização social. Trata-se de princí­pios de caráter geral, necessariamente considerados no momento em que se ela­bora qualquer norma jurídica. E um desses princípios em especial tem mui­to a ver com o que aqui estamos colo­cando: é o da Resistência à Opressão. Deriva ele da legitimidade do poder, eis que o desígnio do governo legal é a legi­timidade de seus atos, pelo respeito à ordem constituída e aos direitos funda­mentais. Toda ilegalidade é opressiva, o que justifica plenamente a Resistência. As­sim, é certo que os governantes que ca­recem de legitimidade, os governantes despóticos, tirânicos, não podem, em essência, "ser virtuosos". Entendemos que é precisamente este o alcance da razão de ser da pergunta e da resposta referidas inicialmente, res­ponsáveis pela curiosidade que levou à realização do presente trabalho.Aqui reside o compromisso social do ideário da Sublime Ordem, atenta às relações entre governantes e governa­dos. Se eles não são "virtuosos", isto é, se não governam segundo o interesse da sociedade, tornam-se opressivos, o que legitima a revolta. A opressão não dei­xa espaço para a tríade fundamental que a nossa Instituição tomou à Revo­lução Francesa: liberdade, igualdade e fraternidade.Santo Tomás de Aquino (1225-1274, no século XIII, portanto), na obra Summa Theologica, explica que Deus quis que houvesse governo, mas que deixara a forma de governo à livre esco­lha dos homens. Distingue, em segui­da, o tirano a título, isto é, aquele que usurpa o poder, e o tirano ab exercicio, ou seja, o soberano cuja origem pode ser legítima, mas que abusa posteriormen­te do seu poder. Santo Tomás acredita que o tirano a título pode legitimar a sua soberania se governa com retidão, ou seja, no interesse dos seus súditos. Admite também que, em casos extre­mos, quando a tirania toma-se insupor­tável e que imponha aos súditos o co­meter pecados, a rebelião se justifi­ca.Vemos que historicamente a idéia da resistência à opressão não é assim tão recente.
Ao mesmo tempo, temos que admi­tir que a opressão pode nos alcançar mesmo dentro da Ordem Maçônica, especial­mente aquela que atinge os bem-inten­cionados, ao se defrontarem com pesso­as de índole autocrática que, quase sem­pre, estão muito mais preocupadas em estabelecer "feudos" para se eternizarem no poder, apenas para ali­mentar a vaidade e outros vícios. Tais vícios, sabemos todos, além de embota­rem a inteligência e deteriorarem o ca­ráter, cegam a consciência, aprisionan­do o indivíduo na mais terrível das mas­morras. E o ideário maçônico - razão de ser da instituição - fica obviamente com­prometido. É lógico, portanto, que o di­reito de resistir a esta forma de opres­são também pode (e deve) prevalecer. Ah!... os tiranos... como os há na Su­blime Ordem, infelizmente! Aliás, urge que se faça alguma coi­sa, pois como diz Edmund Burke (1729­1797), "Há um limite além do qual a to­lerância deixa de ser uma virtude".

MAÇONARIA FRANCESA VERSUS MAÇONARIA ANGLO-SAXÃ
Procurando estabelecer um paralelo entre os postulados adota dos pela ma­çonaria francesa e pela anglo-saxã, to­mamos como referência o título lI, da Autoridade Civil, na Constituição de Anderson, de 1723, que estabelece: "o maçom deve ser pessoa pacífica, subme­ter-se às leis do país onde estiver e não deve tomar parte nem se deixar arras­tar nos motins ou conspirações deflagradas contra a paz e a prosperi­dade do povo, nem se mostrar rebelde à autoridade inferior, porque a guerra, o derramamento de sangue e as perturba­ções da ordem, têm sido sempre funes­tas para a Maçonaria. Assim é que, na antiguidade, os reis e príncipes se mos­traram muito dispostos para com a so­ciedade, pela submissão e fidelidade de que os maçons deram constantes provas no cumprimento de seus deveres de ci­dadão e em sua firmeza em opor sua con­duta digna a caluniosas acusações de seus adversários: esses mesmos reis e príncipes não se recusaram a proteger os membros da corporação e defender a integridade da mesma, que sempre pros­perou em tempo de paz."Eis aí claramente expresso o cará­ter de submissão da maçonaria anglo-­saxã no início do século XVIII, tutela­da pela nobreza, ainda que os maçons "fossem fiéis às leis" (será que também eram "amigos dos governantes"?). Com toda a certeza, a "burguesia" da época adulava a nobreza buscando a garantia de privilégios e interesses, principal­mente nas colônias inglesas espalhadas pelo mundo.A propósito, João César (in Maçona­ria e Política, 1956, p. 98), comenta: "Por aí se vê o caráter eminentemente políti­co da Constituição de Anderson. En­quanto havia necessidade de a Maçona­ria servir aos adeptos das concepções democráticas e liberais de Cromwell, essa Constituição não encontrava ambiência. E só teve a aceitação que granjeou imediatamente, porque ia ser­vir, politicamente, ao poder constituído, interessado na 'submissão' de tão pode­rosa organização".Enquanto que a moderna maçonaria anglo-saxã se estruturou (e frutificou) sob a égide da subserviência à monar­quia, a maçonaria francesa cresceu e se fortaleceu a partir de conceitos diametralmente opostos, formulados a partir do ideário iluminista e sob a inspiração dos mais elevados prin­cípios de liberdade e de respeito aos direitos mais elementares, reconhe­cidos como fundamentais na exis­tência de todos os homens. E é precisamente este o Compromis­so Social da Maçonaria, e que se consti­tui no legado, na herança que nos dei­xaram aqueles que nos precederam. Esta é a bandeira da Ordem Maçônica, comprometida democraticamente, des­de a sua origem, com a construção de um Templo Social em que a liberdade, a igualdade e a fraternidade existam con­cretamente, e não sejam apenas meros enunciados idealísticos.Se há compromisso, há também res­ponsabilidade.Temos, todos nós, a mais absoluta convicção de que são extremamente di­fíceis os tempos em que vivemos. Hoje, a tirania é de outra natureza, muito embora a corrupção não seja muito di­ferente daquela, ensejando como que a falência de certos valores morais. Isto, novamente, consagra a desigualdade e cria novos excluídos.
É preciso que utilizemos a experiência e os conhecimentos que a Maçona­ria nos proporciona, buscando um efei­to multiplicador, contagiando o mundo profano com a prática da virtude, mos­trando, assim, que aprendemos as lições do ideário iluminista.
O maçom, por ter "visto a Luz", deve saber introjetar os valores éticos e mo­rais da instituição, pois os seus postu­lados estão alicerçados no amor e na convicção de que todos aqueles com quem convivemos são IGUAIS a nós e, ainda que não tenham tido a oportuni­dade de VER A LUZ, também eles são nossos IRMÃOS.

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