Diretor: Jairo de Lima Alves
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Pode surgir um novo Ministério

Jairo de Lima Alves

A Rosa pode configurar como um símbolo para o Ministério de Salém, a exemplo da Rosa de Lutero.

Assembleia de Deus
Ministério de Salém

São públicas e notórias as divisões nos grupos religiosos, tanto na senda evangélica, nos chamados Ministérios, como noutras religiões no Brasil e no mundo. As divisões surgem de repente e as explicações são dadas com a maior naturalidade. Isso ocorre no catolicismo com as chamadas congregações e todos conhecem como tudo começa. Na prática é a disputa pelo poder. Cada um quer demarcar o seu território, estabelecendo alguns critérios para dominar as massas. Quando um movimento se desenvolve, o seu líder não quer mais ficar submisso a outro comando, e parte para a independência, nem que seja como um subgrupo. É o que se vê hoje, como exemplo, com os muitos títulos que recebem as subdivisões na Assembleia de Deus e noutras denominações como Batista e tantas outras.
Isso também ocorre nas pequenas cidades, por ingerência de alguns pastores. Mundo Novo tem a sua divisão e dentro de algum tempo pode surgir um novo desdobramento, por iniciativa de alguns jovens descontentes com a administração na Assembleia de Deus Missões. Daí, pode surgir um grupo com o nome de Assembleia de Deus - Ministério de Salém. Para tanto, são amplas as justificativas. A origem, todos podem imaginar como funciona. As bases são fundamentadas no texto histórico, aqui comentado.

Capitulo I

Esta é a história de Salém segundo ouvi dos lábios de Melquisedeque por
ocasião da festa de Sukot, quinze dias depois do livramento de Ló e suas
filhas.

Tudo começou com um sonho no coração de um homem chamado Adonias; Ele
possuía de muitas riquezas, mas a nada prezava mais que a justiça e a
paz que nascem da sabedoria e do amor.

Cansado com as injustiças que predominavam por toda a terra de Canaã,
Adonias resolveu edificar um reino que fosse regido por leis de amor e
de justiça. O nome da capital desse reino seria Salém, a Cidade da Paz.

Os súditos de Salém não empunhariam arcos e flechas, mas seriam
treinados na arte musical; Cada habitante de Salém teria sempre ao
alcance de suas mãos um instrumento musical, para expressar por meio
dele a paz e a alegria daquele novo reino. Juntos, formariam uma
poderosa orquestra na luta contra a desarmonia que nasce do orgulho e do
egoísmo.

O primeiro passo de Adonias para a concretização de seu plano, foi
elaborar as leis do novo reino, as quais ele as escreveu em um
pergaminho. Os súditos de Salém não poderiam mentir, furtar, odiar, nem
matar seus semelhantes. O orgulho e o egoísmo eram apontados como causa
de todo o mal, portanto, não poderiam existir naquele lugar de paz..

As leis do pergaminho requeriam a prática da humildade, da sinceridade,
da amizade, e, acima de tudo, do amor que é a maior de todas as
virtudes.

Depois de registrar no pergaminho as leis que regeriam aquele reino,
Adonias passou a arquitetar Salém. Seria uma cidade a princípio pequena,
com habitações para mil e duzentas pessoas. Como lugar de sua
edificação, foi escolhida uma região alta de Canaã, ao ocidente do Monte
das Oliveiras.

Em pouco tempo, a realização de Adonias começou a atrair pessoas de
todas as partes que, de perto e de longe, vinham para conhecerem os
palácios e as mansões que estavam sendo edificados. Admirados ante a
beleza daquela cidade tão alva, os visitantes perguntavam sobre quem
seriam os seus moradores. Adonias mostrava-lhes o pergaminho, dizendo
que Salém destinava-se aos limpos de coração - aqueles que estivessem
dispostos a obedecerem suas leis.

A História de Salém

Capitulo II

A edificação da cidade foi finalmente concluída e Salém revelou-se
formosa como uma noiva adornada, à espera de seu esposo.

Assentado em seu trono, Adonias examinava agora os numerosos
pretendentes a súditos que chegavam de todas as partes. Aqueles que,
prometendo fidelidade às leis, eram aprovados, recebiam três dotes do
rei: o direito à uma mansão, vestes de linho fino e um instrumento
musical no qual deveriam praticar.

A cidade ficou finalmente repleta de moradores. Cheio de alegria,
Adonias convocou a todos para a festa de inauguração de Salém, no
decorrer da qual proclamou um decreto que determinaria o futuro daquele
reino, dizendo:

- A partir deste dia, que é o décimo do sétimo mês, seis anos serão
contados, nos quais todos os moradores serão provados. Somente aqueles
que permanecerem leais, progredindo na prática das leis do pergaminho,
serão confirmados como herdeiros deste reino de paz. Aqueles que forem
enlaçados por culpas e transgressões, serão banidos pelo juízo.

As palavras do rei levou a todos a um profundo exame de coração, e
alegraram-se com a certeza de que alcançariam vitória sobre todo o
orgulho e egoísmo, que são as raízes de todos os males.

Adonias tinha um único filho a quem dera o nome de Melquisedeque. A
beleza, ternura e sabedoria desse filho amado, haviam sido sua
inspiração para a edificação fundação de seu reino.

Melquisedeque tinha doze anos de idade, quando Salém foi inaugurada. Era
plano de Adonias coroá-lo rei sobre os súditos aprovados, ao fim dos
seis anos. Este plano, o manteria em segredo até o momento devido.

O príncipe, com suas virtudes e simpatia, tornou-se logo muito querido
de todos em Salém. Ele tinha sempre nos lábios um sorriso e uma palavra
de carinho. Apreciava estar junto aos súditos em seus lares,
recitando-lhes as leis do pergaminho em forma de lindas canções que
vivia a compor. Sua presença trazia ao ambiente uma atmosfera de
felicidade e paz. Esse amado príncipe possuía, de fato, todas as
virtudes necessárias para ser rei de uma Salém vitoriosa.

Adonias edificara uma mansão especial junto ao palácio, com o propósito
de ofertá-la ao súdito cuja vida expressasse mais perfeitamente as leis
do pergaminho. Diariamente ele observava os moradores, procurando entre
eles essa pessoa a quem desejava honrar.

Passeava pelas alamedas de Salém, quando, por entre o trinar de
pássaros, Adonias ouviu uma voz semelhante a de seu filho. Ao voltar-se
para ver quem era, encontrou um belo jovem que cantarolava uma canção.
Ao contemplar em sua face o brilho da sabedoria e da pureza, Adonias
alegrou-se por haver encontrado aquele a quem poderia honrar. Aquele
jovem, que era uma cópia fiel do príncipe, chamava-se Samael.

Colocando-lhe um anel no dedo, o rei conduziu-o ao palácio, onde,
recebido por Melquisedeque que ofereceu-lhe muitos presentes, entre os
quais o direito de estar sempre ao seu lado.

Adonias preparou um grande banquete em honra a Samael, para o qual todos
foram convidados. Ao contemplá-lo ao lado do rei, os súditos o aclamaram
com alegria, acreditando ser o próprio príncipe.

Exaltavam com júbilo as virtudes daquele formoso jovem, quando
revelou-se Melquisedeque, posicionando-se com um sorriso à direita de
seu pai.

No banquete, Samael foi honrado por todos. Realmente ele era digno de
residir na mansão do monte, pois havia nele um perfeito reflexo das
virtudes que coroavam o amado príncipe.

A História de Salém

Capitulo III

Salém crescia em felicidade e paz.Com alegria, os súditos reuniam-se a
cada dia ao amanhecer para ouvirem, cantarem e tocarem as sublimes
composições de Melquisedeque, que inspiravam atos de bondade e paz.

Entre as amizades nascidas e fortalecidas em virtude da música
harmoniosa, sobressaia aquela que unia o príncipe a Samael. Desde que
passara a residir na mansão do monte, Samael tornara-se seu companheiro
constante. Passavam longas horas juntos, meditando sobre as leis do
pergaminho.Com admiração, o súdito honrado via o filho de Adonias
transformar aquelas leis em lindas canções. As doces melodias nasciam
dos seus lábios como o perfume de uma flor.

Consciente da importância da música na preservação da harmonia e paz em
Salém, o príncipe, além do canto, passou a dedicar-se à música
instrumental, sendo o seu instrumento preferido o alaúde. Era por meio
desse instrumento que conseguia expressar com maior perfeição a riqueza
de seu íntimo.

Dos seis anos de prova, cinco, finalmente, passaram. Adonias, feliz por
ver que até ali todos os habitantes de Salém haviam permanecido leais
aos princípios contidos no pergaminho, convocou-os para um banquete, no
qual faria importantes revelações.

Tendo tomado seus lugares diante do trono, os súditos, com alegria
uniram as vozes entoando os cânticos da paz, sendo regidos por Samael.

Depois de ouvi-los, o rei, emocionado, dirigiu-se a seu filho,
abraçando-o em meio aos aplausos da multidão agradecida. Todos
reconheciam que a paz e a alegria em Salém, eram em grande medida
devidas ao amor e dedicação do querido príncipe, que era o autor
daquelas doces canções.

Naquele momento de reconhecimento e gratidão, Adonias revelou os seus
planos mantidos até então em segredo.Com voz pausada, disse-lhes:

- Súditos deste reino de paz, minh’alma está repleta de alegria por
contemplar nesse dia vossas faces mais radiantes que outrora. Vossas
vestes continuam alvas e puras, como quando as recebestes de minhas
mãos. A harmonia de vossas vozes e instrumentos, hoje são maiores.

Tendo dito estas palavras, o rei acrescentou com solenidade:

-Um ano de prova ainda resta, ao fim do qual sereis examinados.
Permanecendo fiéis como até aqui, sereis honrados confirmados como
súditos deste reino de paz. Contudo, se alguém for achado em falta, será
banido, ainda que este julgamento nos traga muita tristeza e sofrimento.

As palavras do rei levaram os súditos a uma profunda reflexão. Todos,
examinando-se, indagavam reverentes: - Estaremos aprovados?!

Certos de que seriam vitoriosos, pois amavam Salém e suas leis, uniram
as vozes num cântico expressivo de fidelidade. Ao terminarem o cântico,
Adonias revelou-lhes seu grande segredo:

- Aqueles que forem aprovados, herdando este reino de paz, receberão
como rei o meu filho , a quem darei o trono glorificado dessa Salém
vitoriosa.

A revelação do rei foi aclamada por todos com muito júbilo. Adonias,
contudo, ainda não lhes revelara todo o seu plano, por isso pedindo-lhes
silêncio, prosseguiu:

- O meu filho empunhará um cetro especial, no qual selarei todo o
direito de domínio seu cetro , simbolizando toda a harmonia, será um
alaúde.

Diante desta revelação que a todos sensibilizou, o príncipe
prostrando-se aos pés de seu pai, chorou motivado por muita alegria.
Enquanto isto, todos o aplaudiam com euforia, ansiando ver o raiar desse
dia em que a paz seria vitoriosa.

Adonias, chamando para junto de seu filho a Samael, concluiu dizendo:

- No governo dessa Salém vitoriosa, tenho proposto fazer de Samael o
primeiro depois de Melquisedeque. A ele será confiado o pergaminho das
leis, devendo ser o guardião da honra desse reino triunfante.

A História de Salém

Capitulo IV

Samael, ao conhecer os planos de Adonias quanto ao futuro de Salém,
encheu-se de euforia. Contemplava agora risonho aquela cidade sem igual,
imaginando seu futuro de glória. Considerando as palavras do rei, de que
ele seria o segundo no reino, deixou ser dominado por um sentimento de
exaltação. Ele, que até ali, em obediência às leis do pergaminho, vivera
uma vida de humildade, começava a orgulhar-se de sua posição. Em seu
devaneio sentia-se junto ao trono, tendo os súditos de Salém a seus pés,
aclamando com louvores sua grandeza. Samael, totalmente dominado por
esse sentimento, não dava por conta de que estava sendo conduzido para
um caminho perigoso. O orgulho que o seduzira, estava gerando o egoísmo
que logo se manifestaria em cobiça.

Uma semana após a revelação de Adonias, os súditos promoveram uma festa
em homenagem a Melquisedeque, o futuro rei de Salém. Vendo-o aclamado
por tantos louvores, Samael teve o coração tomado por um estranho
sentimento de inveja, fruto do orgulho e do egoísmo. Não podia suportar
o pensamento de ser deixado em segundo plano. Não era ele tão formoso e
sábio quanto o príncipe?! Era quase impossível disfarçar tal sentimento
de infelicidade.

Outrora, Samael encontrara indizível prazer nos momentos em que, ao lado
do príncipe, recitava as leis contidas no pergaminho, que eram
transformadas em lindas canções. Agora, tais momentos tornaram-se
desagradáveis, pois aqueles princípios contrariavam os seus ideais.
Decidiu, contudo, não revelar seus sentimentos de revolta. Suportaria o
antiquado pergaminho até que, com sua autoridade, pudesse bani-lo do
novo reino que seria estabelecido. Não seria ele o guardião daquelas
leis? Essa "vitória" procuraria alcançar mediante sua influência e
sabedoria.

Julgando poder influenciar o filho de Adonias com seus sonhos de
grandeza, Samael aproximou-se dele com euforia, e passou a falar-lhe das
glórias do reino vindouro, onde os dois, cobertos de honras,
desfrutariam dos louvores de uma Salém vitoriosa. Seriam eles os heróis
do mais perfeito reino estabelecido entre os homens.

As delirantes palavras do súdito honrado trouxeram preocupação e
tristeza ao coração do jovem príncipe, pois não refletiam os
ensinamentos de amor e humildade do pergaminho.

Vendo o seu íntimo amigo em perigo, Melquisedeque, com uma ternura
jamais revelada, conduziu-o para junto do trono, onde, tomando o
pergaminho, passou a ler compassadamente os seguintes parágrafos:

- O reino de Salém será firmado sobre a humildade ,pois esta virtude é a
base de toda verdadeira grandeza.

A humildade é fruto do amor, sendo contrária ao orgulho, que pode manter
uma criatura presa ao pó, fazendo-a contentar-se com suas limitações
,iludindo-a como se as mesmas fossem de infinito valor.

A humildade consiste no esquecimento de si, e este, numa vida de
abnegado serviço pelos semelhantes.

Samael, esforçando-se para encobrir sua indignação ante a leitura do
pergaminho que para ele era ultrapassado, disse ao príncipe, em tom de
conselho amigo:

- Meu bom companheiro, reinaremos numa Salém vitoriosa, que fulgurará
muito acima deste pergaminho ,cujos princípios foram cumpridos fielmente
nesses anos de prova. A plena liberdade não será a glória de Salém? Pois
saiba que, completa liberdade não coexistirá com estas leis, cujo
objetivo encerra-se ao fim dos cinco anos. Caberá a nós dois coroarmos
Salém com a honra de uma total liberdade, que gerará uma felicidade sem
fim. Tal liberdade é impossível existir sob as limitações do pergaminho.

O filho do rei ficou muito abalado ante as palavras de seu amigo, que
evidenciavam loucura. Como libertá-lo desse caminho de morte?!

Ninguém em Salém, além de Melquisedeque, conhecia a triste condição de
Samael. Com paciência, o príncipe procurava conscientizá-lo do real
valor do pergaminho, cujas leis não podiam jamais ser alteradas, pois
isto seria o fim de toda a paz.

Os conselhos do príncipe despertaram finalmente o seu coração. Meditando
sobre suas palavras, conscientizou-se de estar seguindo por um caminho
enganoso.

Ao ver nos olhos daquele a quem tanto amava as lágrimas do
arrependimento, o filho de Adonias alegrou-se com sua vitória sobre o
orgulho e o egoísmo.

Os dias que seguiram-se à libertação, foram cheios de realizações; O
príncipe revelava-se ainda mais amigo, disposto a dar tudo de si para
que seu companheiro pudesse prosseguir triunfante no caminho da
humildade. Naqueles dias de júbilo, foi dada a ele a honra de conhecer o
cetro que estava sendo moldado.

Num momento de descuido, Samael que voltara a desfrutar paz de espírito,
permitiu que seu coração novamente ficasse possuído por um sentimento de
grandeza, que fez desencadear nova tormenta em sua alma. Esse sentimento
misto de orgulho e cobiça lhe sobreveio no momento em que o príncipe
mostrava-lhe o dourado alaúde, no qual estava sendo impresso o selo de
todo o domínio.

A História de Salém

Capitulo V

De sua mansão Samael contemplava Salém em seu resplendor matinal.
Vendo-a, qual noiva adornada à espera de seu rei, cobiçou-a. Em seu
delírio passou a formular planos de conquista. Já podia sentir-se
exaltado sobre o seu trono, tendo nas mãos o cetro precioso. Todos
aclamariam-no como o libertador da opressão daquelas leis. Salém seria
um reino de completa liberdade e prazer. Dominado por esta cobiça,
passou a maquinar planos de conquista.

Samael decidiu agir sutilmente entre os súditos, levando-os a ver no
pergaminho um impecílio à real liberdade. Em sua missão de engano,
agiria com aparente bondade, revelando interesse pelo crescimento da
felicidade de todos.

Pondo em prática seus planos, passou a visitar os súditos em suas
mansões, falando-lhes das glórias do reino vindouro, onde desfrutariam
completa liberdade.

Grande era a sua influência em Salém. Todos admiravam sua beleza e
sabedoria, tendo-o como um perfeito apóstolo da justiça e do amor.
Ninguém podia imaginar que em meio àquela atmosfera de júbilo e gratidão
uma armadilha sutil estava sendo colocada, nas garras da qual muitos
poderiam cair por descuido.

Em sua sedutora missão, Samael não falava contra o pergaminho, aliás,
louvava-o por haver exercido naqueles seis anos prestes a findarem ,uma
missão de prova. Em sua lógica, contudo, procurava mostrar que, no reino
vindouro, quando todos estivessem aprovados, estariam acima daquelas
leis. Seus argumentos, aparentemente corretos, preparavam-lhe o caminho
para afirmar abertamente que, no novo reino, a existência do pergaminho,
seria um entrave à concretização da verdadeira liberdade.

As sementes da rebelião lançadas por Samael não tardaram a germinar no
coração de muitos em Salém. Isto acontecia a seis meses do Yom Kipur,
quando o destino de todos seria selado. Um terço dos habitantes
,seduzido pelo terrível engano, exaltava-o agora, em completo desprezo
às leis e ao príncipe, a quem julgavam ultrapassados.

Adonias, que sofria ao ver o surgimento de toda essa rebeldia, convocou
os súditos para uma reunião de emergência. Na face de todos podia-se ver
as contrastantes disposições.

Com voz compassiva, o rei passou a revelar-lhes, como jamais fizera
antes, a grande importância das leis registradas no pergaminho,
mostrando que elas eram a base de toda a prosperidade e paz. Se tais
leis fossem banidas, toda felicidade e glória se extinguiriam, dando
lugar ao caos.

Depois de mostrar a necessidade das leis, Melquisedeque, movido por um
forte desejo de salvar aqueles a quem tanto amava, ergueu diante de
todos o pergaminho e, com voz cheia de bondade ofereceu-lhes o perdão e
a oportunidade de recomeçarem no caminho da paz. Suas palavras a todos
emocionou, ficando até mesmo Samael ficou a princípio motivado, contudo,
o orgulho impediu-lhe novo arrependimento. Desta maneira, o súdito
honrado, quando ainda podia olhar arrependido para o pergaminho,
endureceu-se em sua rebeldia, decidindo prosseguir até o fim. Esta
decisão, todavia, não a manifestaria prontamente, pois idealizara um
traiçoeiro plano.

Ao findar o encontro da oportunidade, Samael convocou seus seguidores
para uma reunião secreta, que foi realizada sob o manto da noite, junto
ao riacho de Cedrom que ficava fora dos muros de Salém.

Após maldizer o pergaminho e a todos aqueles que o defendiam, ,começou a
falar-lhes de seus planos de vingança e traição:

- Como vocês sabem, os seis anos da prova estão se esgotando, restando,
a partir de hoje, vinte e quatro semanas para o dia da coroação. Se
vocês quiserem ter-me como rei em lugar de Melquisedeque, poderei
roubar-lhe o cetro, apoderando-me do reino.

Samael passou a explicar-lhes os lances da traição, dando-lhes as
devidas orientações sobre a maneira de agirem a partir daquela data:

- Precisamos manter uma aparência de fidelidade ao pergaminho e ao
príncipe até que chegue o momento de agirmos. O golpe será dado na noite
que antecede o dia da coroação. À meia-noite, furtivamente nos
ausentaremos de Salém. Roubarei nessa noite o cetro e, juntos, fugiremos
para o profundo vale onde estão as cidades de Sodoma e Gomorra. Ali nos
armaremos, e marcharemos contra Salém, subjugando nossos inimigos.
Acabaremos então com o pergaminho e com todos aqueles que se recusarem
prestar obediência ao nosso governo.

A História de Salém

Capitulo VI

Sobrevieram dias de aparente tranqüilidade e paz Samael, fingindo
fidelidade, estava sempre ao lado do príncipe, demonstrando admiração
pelas suas novas composições que exaltavam as leis do pergaminho. Os
seguidores de Samael, da mesma maneira, uniam as vozes em louvores que
expressavam a grandeza dos princípios aos quais repugnavam.

Melquisedeque, cheio de alegria por ver aproximar-se o dia de sua
coroação, ensaiava com os súditos os cânticos da vitória, os quais
compusera especialmente para aquela ocasião.Com felicidade falava a
todos sobre seus sonhos em tornar Salém cada vez mais honrada por sua
beleza e harmonia.

Samael, em sua maldade velada, zombava do príncipe. Já previa a dor que
lhe traria o golpe da traição.

Naqueles dias de aparente paz, o súdito rebelde procurou conhecer o
lugar em que o cetro ficaria oculto até o dia da coroação. O príncipe,
sem nada desconfiar, revelou-lhe todo o segredo: a sala, o cofre com seu
enigma, o rico estojo e, finalmente o tesouro. Contemplando-o o astuto
Samael animou-se ao ver estampado em seu bojo o selo do domínio;
Compreendeu que, aquele que o possuísse, teria nas mãos o reino de
Salém. Somente alguns dias, pensou, e teria sob seu poder aquele
instrumento precioso.

O sol declinou trazendo para Salém o dia que significaria vitória ou
derrota.

Pouco antes do anoitecer, Samael deixara o palácio onde passara todo o
dia ao lado do príncipe, ajudando-o nos preparativos para a cerimônia da
coroação. Dirigindo-se para sua mansão, saudou as trevas com um sorriso
maldoso. Como ansiara por aquela noite!

Enquanto os fiéis, embalados pela emoção da feliz vitória , revisavam
sob a luz de candeias os adornos de seus instrumentos, de vestes e
mansões, certificando-se que seriam aprovados na manhã seguinte, Samael
e seus seguidores faziam seus últimos preparativos para desferirem o
golpe.

À meia-noite, seguindo as instruções de Samael, todos os seus seguidores
abandonaram silentemente suas mansões, rumando-se ao profundo vale de
Cedrom, onde esperariam pelo seu novo rei.

Samael, por sua vez, dirigiu-se aos fundos do palácio, por onde esperava
entrar sem ser notado, indo ao encontro do cetro. Evitando qualquer
ruído, transpôs o portal, dirigindo-se silentemente à sala que guardava
o precioso cetro.

Naquele momento, o príncipe que, insone rolava em seu leito,
pressentindo algum perigo, dirigiu-se ao quarto de seu pai e o despertou
dizendo:

- Meu pai, ouvi ruídos de passos no interior do palácio.

Afagando a cabeça de seu filho, Adonias, sonolento respondeu-lhe:

- Filho, não se preocupe. Deite-se comigo e durma tranqüilamente. Daqui
a pouco raiará o alvorecer e você terá nas mãos o alaúde dourado.

O príncipe, tranqüilizado pelas palavras confiantes de seu pai,
entregou-se a um sono de lindos sonhos em que vivia ao lado de Samael e
de todos os súditos de Salém, os momentos festivos da coroação. Enquanto
isso, o rebelde com as mãos trêmulas, apossava-se do cetro. Naquele
momento, teve a idéia de levar somente o alaúde, deixando o estojo em
seu devido lugar.Com um sorriso cheio de maldade, imaginou o momento em
que o rei entregaria ao seu filho aquele estojo vazio.

Levando consigo o cetro, Samael dirigiu-se apressadamente ao lugar em
que seus seguidores o aguardavam. Ao encontrá-los, deu vazão a todo o
seu orgulho proclamando:

- Agora eu sou o rei de Salém. Quem possui um cetro como o meu? Com ele
domino a terra e o mar.A minha força está nas trevas , pois através dela
o conquistei.

Festejando a vitória, a turba ruidosa afastou-se para distante de Salém,
seguindo rumo às cidades corrompidas da planície, onde pretendiam
armarem-se para a conquista de seu reino.

O sol surgiu no horizonte, trazendo a luz do dia da expiação (Yom
Kipur)..Despertando de seu sono de lindos sonhos, o príncipe apronta-se
para a cerimônia do juízo e da coroação. Vestes especiais de linho fino,
adornadas com fios de ouro e pedras preciosas, foram-lhe preparadas.
Depois de vestir-se, Melquisedeque encaminhou-se para o encontro de seus
súditos, na extremidade sul de Salém. Dali os conduziria numa marcha
festiva rumo ao palácio situado ao norte, sobre o monte Sião.

Adonias, fazendo soar um longo chifre, convocou a todos para a reunião
do julgamento. Deixando suas mansões, todos os remanescentes
dirigiram-se para a praça do portão sul, levando consigo seus
instrumentos musicais.

Ao encontrar-se com aqueles fiéis, Melquisedeque ficou surpreso pela
ausência de muitos. Esse mistério doía-lhe na alma, pois lhe
ocultava-lhe a face mais querida de seu amigo Samael.

Deixando seus seguidores reunidos, o príncipe saiu à procura dos
ausentes. Em sua busca infrutífera, dirigiu-se finalmente à mansão do
monte, onde chamou por Samael; Sua voz, contudo, não trouxe nenhuma
resposta além de um eco vazio, que traduzia ingratidão.

Lendo no triste vazio a traição, sentiu vontade de chorar. Num só
momento veio-lhe à mente todo o passado daquele a quem buscara com tanta
dedicação conservá-lo em sua glória, através de conselhos sábios.
Recordou daqueles dias que seguiram à sua recuperação; Como se alegrara
com a certeza de que seu amigo não mais voltaria a cair! Levando-o a
pressentir a tragédia, veio-lhe a lembrança as indagações de Samael
sobre o alaúde, o qual mostrou-lhe num gesto de amizade. A memória deste
fato, somada aos passos ouvidos no interior do palácio naquela noite,
deu-lhe a certeza que Salém corria perigo. Não suportando essa
possibilidade de traição, prostrou-se em pranto, ferido pela terrível
ingratidão daquele a quem dedicara tanto amor.

Curvado pela dor, permaneceu por algum tempo procurando encontrar algum
consolo. Enxugou finalmente as lágrimas, decidido a fazer qualquer
sacrifício a fim de devolver a Salém sua glória e poder, redimindo-lhe o
cetro das mãos da rebeldia.

Consolado pela certeza da vitória, Melquisedeque retornou para junto dos
súditos fiéis. Ocultando-lhes seu sofrimento, bem como o motivo da
ausência de tantos, o príncipe guiou-os em marcha triunfal rumo ao
palácio.

A História de Salém

Capitulo VII

Ao aproximarem-se do monte Sião, galgaram os alvíssimos degraus da
escadaria, sendo seguidos pela multidão exultante. Doía-lhe na alma a
expectativa de ver morrer nos lábios dos fiéis, naquela manhã, o seu
alegre canto, devido o golpe da traição.

Encontravam-se agora no interior do palácio, diante do magnífico trono
que esperava pelo jovem rei. Na base do trono, jazia aberto, em meio a
um arranjo de flores, o pergaminho das leis. Junto dele podia-se ver a
linda coroa, feita de ouro e pedras preciosas, bem como o estojo daquele
cetro que simbolizava toda a harmonia de Salém.

Os súditos estavam felizes, pois sabiam que seriam achados dignos de
herdar aquele reino de paz. Aguardavam agora o momento da coroação,
quando o seu novo rei os regeria de seu trono com seu cetro precioso,
num cântico triunfal.

Em meio aos aplausos das hostes vitoriosas, Melquisedeque dirigiu-se a
seu pai, que o recebeu com um carinhoso abraço. O momento era deveras
solene. As hostes silenciaram-se na expectativa da coroação. O estojo
seria aberto e, todos testemunhariam a exaltação do querido príncipe.

Com o coração pulsando forte pela alegria, Adonias curvou-se sobre o
estojo, abrindo-o cuidadosamente; Ao encontrá-lo vazio, a alegria de seu
semblante deu lugar à uma expressão de indizível preocupação e tristeza,
pois naquele cetro selara o destino daquele reino de paz.

Ao ver seu pai e todos os súditos aflitos pela ausência do cetro e de
tantos amigos que deveriam estar com eles naquele momento, Melquisedeque
consolou-os com a promessa de que buscaria o cetro. Inconscientes dos
riscos e perigos que aguardavam o príncipe em seu caminho, os súditos
despediram-se dele, vendo-o partir apressadamente.

O alvorecer daquele dia que seria o da coroação, alcançou os rebeldes
distantes de Salém, a caminho das cidades da planície. Naquele manhã,
Samael encheu-se de fúria ao ver que o precioso alaúde estava adornado
com inscrições das leis contidas no pergaminho. Tomando uma pedra
pontuda, passou a danificar o cetro, raspando-lhe todas as palavras de
amor e justiça. Suas harmoniosas cordas estavam agora desafinadas sobre
o seu bojo ferido, mas continuava sendo precioso, pois sobre ele jazia
selado o domínio de Salém. Possuí-lo, significava ser dono de todo o
poder.

Ao chegarem à altura em que o caminho bifurcava-se, Samael ordenou a
seus seguidores que prosseguissem rumo a Gomorra, enquanto ele iria até
Sodoma, onde permaneceria por dois dias, juntando-se depois a eles.

Esperou pela noite para entrar em Sodoma. Quando ali entrou, caminhou
pelas ruas estreitas sem ser notado, até encontrar uma casa isolada
sobre uma elevação. Fazendo do cetro sua arma, invadiu a casa matando
seus moradores, enquanto dormiam. Apossou-se dessa maneira daquela
residência onde, solitário, maquinaria seus planos para a tomada de
Salém.

O entardecer daquele dia que seria o da coroação, alcançou o filho de
Adonias a caminhar pelo pedregoso caminho rumo ao vale. Seus olhos
carregados de tristeza e anseio voltam-se para o solo, em busca dos
rastros dos rebeldes. A lembrança da ingratidão daqueles a quem tanto
amava, o fez chorar. Suas lágrimas, refletindo os últimos lampejos
daquele sol poente, assemelham-se a gotas de sangue jorrando de um
coração ferido. Ele chorava não por causa dos perigos que lhe
sobreviriam naquela fria noite, mas pela infeliz sorte daqueles que
haviam trocado a paz de Salém pela violência daquelas cidades da
planície.

O seu único consolo era a lembrança daqueles que, apesar de todas as
tentações, haviam permanecido fiéis. A eles prometera devolver o cetro,
e isto o faria apesar de qualquer sacrifício.

Depois de uma longa noite de insônia em que o príncipe ficou recostado
ao lado do caminho, raiou a luz de um dia que seria decisivo.

Ao aproximar-se de Sodoma naquela manhã, o pensamento de estar tão
próximo do cetro de sua amada Salém, fez com que se esquecesse de toda a
fadiga, abreviando seus passos rumo ao desafio.

Ao abeirar-se do grande portão da cidade, ficou tomado por um temor, ao
ouvir ruídos espantosos de desarmonia, que traduziam o orgulho, o
egoísmo e a cobiça que ali dominavam todos os corações, fazendo-os
explodir na orgia de uma maldade sem fim.

Seria um grande risco expor-se à violência gratuita daquela cidade. Esse
pensamento o fez deter-se a um passo do portal, onde estremecido curvou
a fronte em indizível luta íntima. Era tentado a recuar, mas lutava com
todas as forças de sua alma contra esse pensamento de fracasso.

Pensando na triste sorte de Salém, cujo domínio estava sendo pisado no
interior daquela cruel Sodoma, Melquisedeque tomou uma firme decisão:
como um destemido guerreiro haveria de avançar, e, mesmo que tivesse de
enfrentar o acúmulo de todos os perigos, prosseguiria, até erguer em
suas mãos vitoriosas o cetro amado.

Resoluto e esperançoso, transpôs o portão de Sodoma, mergulhando naquele
mundo estranho. Tudo ali era o oposto de Salém, começando pelas pedras
ásperas e sujas de suas construções. Sodoma era um reino de trevas.

A presença contrastante do príncipe foi logo notada por muitos que, em
tumulto o acercaram. A pureza de caráter expressa em sua meiga face e o
esplendor de suas vestes, encheram-nos de espanto, e recuaram como que
vencidos por uma força invisível. Dominados pela fúria , passaram a
perseguí-lo à distância, decididos a fazê-lo recuar. Jogavam-lhe pedras
e lama tentando macular-lhe as vestes, mas não o atingiam, enquanto ele
avançava em sua ansiosa busca. Desistiram finalmente de perseguí-lo, ao
entardecer.

A História de Salém

Capitulo VIII

O filho de Adonias percorrera todas as ruas e becos à procura do
precioso cetro, mas em vão. Ao ver tombar no horizonte o sol, anunciando
a chegada de mais uma escura e fria noite, seu coração ficou opresso por
uma grande agonia. Ali, naquele último beco, quase que vencido pela
exaustão e pelo desespero, inclinou a fronte, desfazendo-se em pranto.
Seus lábios, pronunciaram em meio aos soluços as seguintes palavras:

- Salém, Salém, você não pode perecer! O seu cetro precisa ser redimido
das garras da rebeldia! Mas quando e onde vou encontrá-lo?! Já não
restam forças em mim, e a esperança de redimi-lo antes da noite me
abandona!

O príncipe, em sua suprema angústia, não percebia que outro gemido de
dor, procedente de cordas arrebentadas de um alaúde humilhado, fazia-se
ouvir naquele entardecer.

Subtamente, o fraco gemido penetrou seus ouvidos, reanimando-o com a
certeza de que o grande momento da redenção havia chegado. Enxugando as
lágrimas, reuniu as últimas forças correndo em direção à uma pequena
casa situada sobre um monte, de onde parecia vir o som.

Ao dirigir-se à porta entreaberta, deteve-se ao contemplar uma cena
chocante, de humilhante escravidão: Samael, envolvido por um manto sujo,
castigava o cetro de Salém. Tanto o rapaz quanto o cetro achavam-se tão
desfigurados, que não restavam neles quase que nenhum traço da glória
perdida. Aquele cetro, contudo, mesmo arrasado como estava, era muito
precioso, pois nele jazia o selo do domínio de Salém.

A contemplação daquele que fora seu maior amigo e daquele cetro
idealizado como símbolo de toda a harmonia, em tão trágica condição,
comoveu profundamente o príncipe, fazendo-o chorar em alta voz. Somente
então o súdito rebelde percebeu sua presença indesejada. Estremecido,
levantou-se, e, cheio de ira perguntou-lhe:

- O que o trouxe a Sodoma?

Apontando para o cetro danificado, Melquisedeque exclamou:

- A glória de Salém está destruída!!!

Com uma gargalhada, Samael zombou de sua tristeza ,dizendo:

- Agora eu sou o rei de Salém. Vocês que são fiéis ao pergaminho,
tornar-se-ão meus escravos.

Sem se importar com as palavras de afronta de Samael, o príncipe, movido
por uma infinita angústia, lhe disse:

- Samael, Salém está ferida por sua traição. Por que você trocou o seu
lar de justiça e amor por esse vale de injustiça, ódio e morte?! Agora,
se não deseja retornar à Salém arrependido, devolva-lhe o cetro. Foi
para redimi-lo que, a despeito de todos os perigos, desci a esse vale
hostil.

Conhecendo o propósito do príncipe, o rebelde encheu-se de raiva e
cerrando os punhos disse-lhe :

- Eu o odeio Melquisedeque!

Tendo dito isto, arremessou o cetro ao chão, e pisando-o acrescentou:

- Tenho vontade de fazer o mesmo com você.

Diante dessa afronta, o príncipe não sentiu nenhum temor, mas compaixão.
Transportando-se ao feliz passado, lembrava-se dos momentos felizes em
que tinha sempre ao seu lado a Samael; Ele era um jovem puro e humilde
de coração; Por que permitira ser escravizado pela ilusão do orgulho e
do egoísmo?! Quão doloroso era ver aquele jovem que, por sua beleza e
simpatia, havia sido honrado acima de todos os súditos, agora arruinado
pela cobiça! Não fora o sonho do príncipe ter junto ao seu trono
glorificado, aquele que lhe era o mais precioso amigo?! Essa tragédia
feria-lhe a alma. Contudo, a triste condição do cetro o atingia ainda
mais, pois ele fora feito como o símbolo de toda a harmonia ,e estava
sendo desfeito sob os pés da ingratidão.

Surpreso por não ver nos olhos de Melquisedeque nenhuma expressão de
temor, porém de piedade, Samael sentiu-se frustrado em suas afrontas que
visam amedrontá-lo, levando-o desistir de sua missão.

Diante da postura digna do príncipe, que em silente dor o contemplava,
sentiu-se envergonhado. Essa fraqueza, contudo, foi banida pelo orgulho
que dominava o seu coração. Começou então a planejar algo terrível, para
humilhar e ferir o príncipe, fazendo-o sofrer ainda mais.Com escárnio
disse-lhe:

- O cetro de Salém poderá ser seu, se você conseguir pagar-me o preço de
seu resgate.

Com um brilho nos olhos, o príncipe perguntou-lhe:

- Qual é o preço?

Samael, com um sorriso maldoso, respondeu-lhe pausadamente:

- O preço não é ouro nem prata, mas dor e sangue. Você deverá despir-se
completamente de suas vestes, deitando-se ao chão. Deverá suportar nessa
condição, espancamentos, até que o sol se ponha. Se você estiver
disposto a submeter-me, sem reagir, o cetro será inteiramente seu.

Estremecido ante tão cruel proposta, o filho de Adonias olhou para o sol
que pairava distante sobre uma nuvem. Passou a travar em seu coração uma
luta intensa. A princípio, o horror do sacrifício quase o dominou,
levando-o recuar, mas o pensamento de ver Salém escravizada pela
rebeldia, levou-o finalmente à decisão de pagar o preço do resgate,
entregando-se ao humilhante sofrimento.

Tendo tomado a firme decisão de resgatar o cetro, o príncipe, tirou as
vestes, colocando-as sobre uma pedra. Deitou-se em seguida naquele solo
frio, com a fronte voltada para o poente.

Impiedosamente, Samael começou a espancá-lo, fazendo uso do próprio
cetro como instrumento de tortura. Gemendo pela dor dos golpes que o
faziam sangrar, o príncipe mantinha o olhar fixo no sol que parecia
deter-se sobre a nuvem. Atordoado pela dor, contemplou finalmente o sol
prestes a se pôr. Alentado pela vitória que se aproximava,murmura
baixinho:

- Salém, Salém, daqui a pouco terei em meus braços o teu cetro precioso
que, em minhas mãos, tornar-se-á num instrumento de justiça e paz.

Ouvindo a promessa do príncipe feita por entre gemidos, Samael
bradou-lhe com fúria:

- O teu sofrimento não trará nenhum alvorecer para Salém ,pois tuas mãos
jamais serão capazes de tocar no cetro.

Depois de fazer essa afronta, Samael apossou-se de uma pedra pontuda,
preparando-se para desferir os últimos golpes.

Enquanto pensava sobre a feliz vitória de Salém, Melquisedeque sentiu
seu braço direito sendo comprimido pelos pés de Samael. Seguiu a esse
rude gesto um golpe que o fez contorcer-se em agonia. Sua mão fora
vazada cruelmente, passando a jorrar abundante sangue da ferida aberta.
Essa mesma violência foi descarregada logo depois sobre sua mão
esquerda.

Não suportando a agonia causada por esses derradeiros golpes, o filho de
Adonias, ensangüentado, mergulhou nas trevas de um profundo desmaio.

A História de Salém

Capitulo IX

Ao cessar de golpear o príncipe, o súdito rebelde ficou possuído por um
estranho horror ao contemplar na face daquele que somente lhe fizera o
bem, o torpor da morte. Procurava não recordar o passado, mas,
irresistente, sentia ser arrastado aos dias de sua feliz inocência em
Salém. Revestido de ricas vestes estava sempre ao lado do príncipe que,
com dedicação, ensinava-lhe a cada dia suas canções que falavam de paz.

Nas indesejadas lembranças pelas quais era arrastado, reviveu seus
primeiros passos no caminho do orgulho e do egoísmo. Lembrou-se dos
incessantes conselhos e rogos daquele que fora seu melhor amigo, para
que desistisse daquele caminho que poderia conduzi-lo à infelicidade.

Depois de ser arrastado em lembranças por todo aquele passado de
felicidade destruída por sua culpa, Samael teve consciência de sua
ingratidão. Horrorizado pelo que fizera, curvou-se sobre o corpo
ensangüentado de Melquisedeque, e desesperou-se ao vê-lo sem vida. Não
suportando o peso da grande culpa, deixou às pressas aquele lugar,
desejando ocultar-se distante, sob as trevas da fria noite.

Depois de um profundo desmaio, o príncipe começou a voltar à
consciência; Em delírios que o transportavam ao seio de sua amada Salém,
ele revivia momentos vividos e sonhados: Com alegria contemplava a face
de seu maior amigo, para quem estendeu a mão com um sorriso. Mas seu
gesto foi frustrado por uma profunda dor. Em meio aos aplausos dos
súditos vitoriosos, recebe de seu pai o cetro, mas ao tocá-lo, sente uma
irresistível dor em suas mãos.

Com esses sonhos frustrados pela dor, Melquisedeque despertou para a
realidade. Estava nu, ferido e solitário, em um lugar perigoso, longe do
abrigo e carinho de Salém. Mais doloroso era pensar que tudo aquilo fora
a retribuição de alguém que fora o alvo principal de todas as dádivas de
seu amor.

O príncipe, sem poder mover-se, considerando a grande traição passou a
chorar sem consolo. Lamentava não por sua dor, mas pela perdição
daqueles que haviam trocado o carinho e a justiça de Salém pelo desprezo
e ódio que os reduziriam finalmente a cinzas sobre aquele vale
condenado.

Através das lágrimas, o príncipe contemplava o céu que, semelhante a um
manto tinto de sangue, estendia-se banhado na luz do sol poente.
Lembrou-se então do alaúde pelo qual pagara tão alto preço. Onde estaria
ele?

Em sua desesperada fuga, Samael deixara o cetro abandonado junto ao
corpo ferido de Melquisedeque. Quando ele o viu, esqueceu-se de toda a
dor, e abraçou-o com suas mãos feridas. Acariciando-lhe o bojo
arruinado, disse-lhe com um sorriso:

- Você é meu novamente. Eu o comprei com o meu sangue".

Samael que, dominado pelo estranho horror, fugira após cometer o
horrível crime, deteve-se a um passo do portão de Sodoma. Ali,
impulsionado pelo orgulho, arrependeu-se com indignação de sua fraqueza.
Por que fugira depois de conquistar tão grande vitória? Não era seu
plano destruir o reino de Salém, para estabelecer seu próprio reino?
Lembrando-se do cetro, decidiu retornar para tomá-lo. Por que o deixara
abandonado junto ao cadáver daquele odiado príncipe?

Reunindo suas poucas forças, Melquisedeque dirigiu-se tropegamente ao
lugar em que deixara suas vestes.

Depois de vestir-se, tendo junto ao peito o cetro amado, o filho de
Adonias, com profunda emoção fez um juramento antes de deixar aquele
lugar de seu sofrimento. Acariciando o cetro diz-lhe:

- Meu querido cetro, você foi criado como um emblema da harmonia que
procede da justiça e do amor. Toda a glória de Salém repousava sobre
você quando a rebeldia em sua ingratidão escravizou-o, arrastando-o para
este vale hostil. Aqui você foi ferido e humilhado, vindo a tornar-se um
instrumento de impiedade nas mãos do tirano. Eu, porém, o redimi com o
meu sangue. Agora nossas feridas serão restauradas, e em breve seremos
entronizados em meio aos louvores de uma Salém vitoriosa. Quando esse
sonho se concretizar, testemunharemos juntos o fim daqueles que se
levantaram contra nós para nos ferir. Samael e seus seguidores serão
devorados pelo fogo que reduzirá às cinzas Sodoma e Gomorra.

Concluindo seu solene juramento ,o jovem príncipe, já oculto pelas
trevas da noite e deixou aquela colina, e sobre ela as marcas de seu
sofrimento.

Desde que o filho do rei partira, prometendo retornar com o cetro, Salém
vivia momentos de indizível anseio. Em pranto, o rei e os súditos
remanescentes lembravam-se de todo aquele feliz passado desfeito pela
ingratidão dos rebeldes. O que mais lhes torturava era a ausência do
príncipe e do cetro, sem os quais todo o brilho daquele reino de paz se
ofuscaria.

Desejando consolar o coração de seus súditos, Melquisedeque avançava em
meio à noite rumo aos montes que cercavam Salém. Ainda que enfraquecido
e ferido, prosseguia em sua marcha ascendente, esperando alcançar sua
pátria pela manhã.

Aquela longa e escura noite foi finalmente vencida pelos raios do
alvorecer. Em Salém a esperança em rever Melquisedeque com o seu cetro
estava quase banida quando, ao olharem para o Monte das Oliveiras,
viram-no descendo pelo caminho do Getsêmani. Quando o encontraram no
profundo vale de Cedrom, ficaram assustados com sua aparência: sua face
estava pálida e seu manto encharcado de sangue. Mesmo assim, ele sorria
expressando grande alegria.

Ao perguntarem-no sobre o porque daquelas marcas de sangue,
Melquisedeque retirou de sob o manto suas mãos feridas, revelando-lhes
entre elas o cetro redimido.

Depois de contar-lhes os passos que o levaram ao resgate do cetro, os
súditos, emudecidos, prostraram-se reverentes aos seus pés, aclamando-o
como seu redentor e rei.

Em meio aos louvores das hostes redimidas, o príncipe foi introduzido no
palácio real, onde sob os cuidados de seu amoroso pai, deveria
restabelecer-se de seu sofrimento. O cetro desfigurado, agora mais
precioso, seria também restaurado, devendo tornar-se mais belo que
antes.

O dia da coroação foi fixado para o próximo Yom Kipur. Naquele dia,
Melquisedeque selaria com o cetro restaurado o triunfo de todos os
fiéis, bem como a condenação dos rebeldes.

A História de Salém

Capitulo X

Poucos instantes após a saída de Melquisedeque, Samael chegara ao local
onde o deixara aparentemente sem vida, ao lado do alaúde. Sem entender
aquele misterioso desaparecimento, ele prosseguiu para Gomorra, onde
seus seguidores o esperavam. a Ao vê-los, proclamou sua "vitória" sobre
o odiado príncipe e sobre o cetro, os quais massacrara em Sodoma, não
restando aos seguidores do pergaminho nenhuma esperança.

Suas palavras agradaram a turba rebelde, que passou a comemorar a
"conquista" entregando-se à orgia. Zombavam agora da justiça e do amor,
exaltando a Samael como rei vitorioso.

Obteriam agora armas, com o propósito de avançarem sobre Salém,
desferindo-lhe o último golpe; Juntaram-se a eles em seu maléfico
propósito, muitos criminosos que foram recebidos como mestres no manejo
de arcos e flechas.

Em sua loucura, Samael ordenou o banimento de todo calendário, pois em
seu reino de "liberdade" não estariam sujeitos a nenhum cômputo de
tempo. As leis da moralidade foram também banidas, surgindo com isso um
completo caos. Essa desordem, revelou-se de maneira mais patente no
barulho estridente e cacofônico, ao qual proclamaram como a nova música.

Dominados pelo egoísmo, Samael e seus seguidores alimentavam-se de
ilusões, inconscientes de que seus dias estavam contados. Os frutos da
rebelião não tardariam em atrair sobre eles o fogo da destruição.

Dividindo seus seguidores em pequenos grupos, Samael passou a
comandá-los em atos violentos que aterrorizavam os moradores das
planícies; Por esse tempo, eles escondiam-se nas cavernas situadas
próximas ao mar salgado.

O respeito e o medo dos guerrilheiros de Samael, levou finalmente os
reis de quatro cidades a procurarem-no, propondo alianças de paz. Eram
eles: Bara, rei de Sodoma, Bersa, rei de Gomorra, Senaab, rei de Adama,
Semeber, rei de Seboim e Segor, o rei de Bela. Por essa época, esses
reis pagavam tributos a Cordolaomor, rei de Elam que, acompanhado pelos
exércitos de quatro outras cidades, os haviam subjugado no vale de Sidim
junto ao mar salgado.

Fortalecido pelas alianças, Samael tornou-se mais ousado em suas
investidas, levando o terror e a destruição aos territórios de cidades
distantes. Os exércitos de Cordolaomor e seus aliados que retornavam
nesses dias de outras conquistas, enfurecidos pelas provocações de
Samael, marcharam contra os quatro reis, vencendo-os novamente no vale
de Sidim. Foi nessa ocasião que levaram cativos os habitantes de Sodoma,
entre os quais encontrava-se o meu sobrinho Ló.

Acovardados diante do furor dos cinco reis, Samael e seus seguidores
esconderam-se em suas cavernas, ao norte do mar salgado

A História de Salém

Capitulo XI

Os doze meses contados a partir do grande sacrifício estavam prestes a
terminar. O cetro, totalmente restaurado, resplandecia em seu estojo,
enquanto o príncipe, igualmente restabelecido das feridas causadas pela
rebeldia, alegrava-se ao ver chegar o Yom Kipur de sua coroação.
Enquanto isso, ele compunha lindas canções que expressavam o seu amor
por Salém.

Naqueles doze meses, a cidade da paz tornara-se mais bela, sendo
adornada qual noiva para o grandioso dia da coroação.

À uma semana para o Yom Kipur, Samael, totalmente inconsciente de que o
dia de seu julgamento se aproximava, reuniu os seus seguidores,
anunciando-lhes que a próxima missão seria a conquista de Salém. Antes
de avançarem, contudo, ele subiria sozinho para verificar os pontos
vulneráveis da cidade.

Depois de ser aplaudido pela turba, Samael partiu em sua missão de
reconhecimento. Enquanto avançava sozinho, procurava não lembrar-se
daqueles momentos que trouxeram-lhe terror pela culpa, mas, dominado por
uma força superior, foi arrastado em suas lembranças para aquele monte
da cruel tortura.

Todo o seu passado começou a vir-lhe à lembrança, como um peso
esmagador.

Quando despertou-se de suas lembranças das quais não conseguiu fugir, já
era noite. A escuridão que o envolvia pareceu-lhe o prenúncio de um
triste fim. Esse desânimo, contudo, procurou bani-lo com a lembrança do
exército que o esperava, pronto para cumprir suas ordens, na conquista
de Salém, onde não haveria lembranças daquele pergaminho.

O alvorecer o alcançou próximo de Salém. Ao avistar o monte das
Oliveiras, veio-lhe à lembrança a última vez que o transpôs, deixando
para trás a cidade vencida. Quantas noites haviam passado desde então?
Ele perdera a noção de tempo, não sabendo que justamente doze meses
haviam se passado. Não podia imaginar que, raiava naquela manhã o Yom
Kipur, o dia de seu julgamento.

Ao chegar ao topo do monte das Oliveiras naquela manhã, Samael
surpreendeu-se ao ver que a cidade tornara-se mais bonita que outrora;
Toda ela estava adornada de ramos e flores, como uma donzela à espera de
seu noivo. Contudo, Salém estava abandonada, não havendo nenhum sinal de
vida em todas as suas mansões. Isto o fez concluir que os golpes que
haviam aniquilado o príncipe e o cetro, trouxeram como conseqüência todo
aquele abandono. Ele não sabia, contudo, que naquele momento todos os
remanescentes daquele reino, encontravam-se ocultos no grande salão do
palácio, aguardando pelo momento mais glorioso, da coroação de
Melquisedeque.

Imaginando-se exaltado sobre o trono abandonado, tendo a seus pés os
exércitos vitoriosos, o rebelde penetrou na cidade, dirigindo-se
apressadamente ao palácio. Ao transpor o portal principal que dá entrada
ao salão principal, ficou surpreso ao ver ali reunidos uma multidão de
fiéis. Sobre um áureo tablado, enfeitado de flores talhadas em pedras
preciosas, encontra-se o trono vazio. Na base do trono estava o
pergaminho das leis, uma coroa de ouro cheia de pedras preciosas e o
estojo que deixara vazio naquela noite de traição. Sem entender o
enigma, Samael escondeu-se por trás de uma coluna, temendo ser
reconhecido, e ficou observando.

Os súditos, com expressão de feliz expectativa olhavam para o trono
vazio. Onde encontravam eles motivos para toda essa alegria, se haviam
perdido o seu rei juntamente com o cetro? Samael questionava sobre esse
mistério, quando Adonias, aplaudido pelos súditos, encaminhou-se para
junto do trono.Com voz cheia de emoção pela vitória, o fundador de Salém
anunciou que havia chegado o momento tão sonhado da coroação. Um brado
de triunfo ecoou pelos ares quando, anunciado pelo seu pai, entrou o
amado príncipe encaminhando-se em direção do trono. Ao vê-lo coberto por
um manto de glória, Samael ficou possuído por um terrível pavor, e
procurou fugir. Descobriu, contudo, que todos os portais do grande salão
estavam fechados por fora.

Teve início a cerimônia da coroação. Era um momento deveras solene.
Adonias, num gesto reverente, tomou a rica coroa, colocando-a na fronte
de seu filho. Prostrando-se depois sobre o estojo, abriu-o
cuidadosamente, tirando dele o alaúde restaurado, cuja beleza e brilho
eram muito superiores à sua primeira condição, ao sair das mãos de
Adonias o seu luthier. Assentando-se no trono em meio às aclamações dos
súditos, Melquisedeque passou a dedilhar o cetro, tirando dele acordes
de muita harmonia e paz. Todos se aquietaram para ouvirem suas novas
composições que expressavam o seu profundo amor pelo cetro e por todo
aquele reino de paz.

Grande emoção invadia o coração de todos naquele momento, levando-os às
lágrimas. Samael, sem forças para reagir, sentia-se torturado por
aqueles acordes que torturavam faziam reviver em sua mente suas
oportunidades perdidas, numa terrível tortura para sua consciência.

Melquisedeque compusera para aquele momento especial, canções que
retratavam os momentos mais marcantes da história de Salém; Quando
passou a cantar sobre a amizade que tinha por Samael, sua voz
embargava-se pelas lágrimas que não conseguia conter. Triste para ele
era cantar sobre a queda daquele que era-lhe o maior amigo! Cantou então
sobre o alto preço que teve de pagar pela reconquista do cetro, que
representa a honra de Salém.

Ao contemplarem aquelas mãos marcadas pelas cicatrizes, tocando com
tanta maestria e carinho o cetro restaurado, os súditos tomados por
forte emoção, prostraram-se em pranto.

Ao ver nas nãos de Melquisedeque aquele alaúde que, em suas mãos fora
instrumento de tortura, Samael compreendeu, tarde demais o quanto
errara, desviando-se dos conselhos do príncipe; Quantas vezes aquelas
mãos sobre as quais descarregara toda aquela violência haviam sido
estendidas num esforço de salvá-lo, e ele as havia negligenciado. Agora,
era tarde demais! Tarde demais!!!

A História de Salém

Capitulo XII

Os súditos triunfantes que, reverentes, haviam sido conduzidos a todo
aquele passado de felicidade, traição, dor e triunfo, uniram finalmente
as vozes numa jubilosa proclamação:

Verdadeiros e justos são os teus princípios, ó rei de Salém. Digno és de
reinar em glória e majestade entre os louvores de teus fiéis, porque em
teu sacrifício nos livraste das ameaças das trevas, fazendo renascer em
nosso coração a alegria do alvorecer.

Esse cântico de exaltação foi seguido pela cerimônia de confirmação de
todos os fiéis em sua vitória. O filho de Adonias, com o seu cetro
redimido, passou a selar com um toque especial do cetro, a vitória de
cada um. Formou-se para tanto uma longa fila de fiéis exultantes.

Os súditos confirmados, à medida em que iam recebendo o toque de
aprovação do rei, posicionavam-se ao lado direito do trono, onde
permaneciam aguardando pela confirmação dos outros.

Os olhares que, iluminados de alegria, haviam acompanhado o selamento
dos últimos justos, pousaram sobre a figura estranha de Samael que,
dominado por uma força irresistível, encaminhava-se cabisbaixo em
direção do trono. Seu aspecto era horrível: seu semblante havia sido
deformado pelo mal; suas vestes estavam sujas e mal cheirosas; tudo nele
repugnava, ao ponto de ninguém reconhecê-lo.

Em meio ao espanto dos súditos, Melquisedeque ergueu-se de seu trono
como que ferido por uma grande dor; De seus lábios os súditos ouvem uma
dolorosa exclamação:

- Samael, Samael!!!

A figura deplorável daquele que fora tão belo, encheu a todos de
tristeza, e começaram a prantear. Eles lamentavam por saber que o
destino de Samael e de todos aqueles que o seguiram, poderia ter sido
muito diferente, se eles houvessem atendido aos rogos de amor de Adonias
e de seu filho. Não era o plano do rei e o sonho de Melquisedeque tê-lo
como o guardião do pergaminho, sendo o segundo em honra naquele reino?

Samael que, reconhecendo sua desventura, aproximara-se cabisbaixo do
trono, ao presenciar toda aquela lamentação, é novamente iludido pelo
orgulho, julgando tratar-se de uma demonstração de fraqueza de seus
inimigos. A lembrança de seu exército que fortalecido o aguarda na
planície, ilude-o com a certeza de que será vitorioso sobre Salém.Com
esse pensamento, ergue a fronte marcada pelo ódio e, fitando o rei,
levanta o punho cerrado e o desafia, desdenhando de sua autoridade, com
a ameaça de tomar-lhe o trono.

Ainda que condoídos por sua perdição, os súditos de Salém não suportaram
a ousada afronta daquele enlouquecido jovem que, depois de causar tanto
sofrimento, ainda era capaz de erguer-se com tamanho desafio.

O vitorioso rei que com tanto prazer selara com o seu cetro a conquista
dos fiéis, ergueu-o dolorosamente para o selamento da triste sorte dos
rebeldes. Imobilizado por uma força estranha, Samael, sem desviar os
olhos do cetro, ouviu dos lábios do rei a proclamação de seu julgamento
e de todos os seguidores:

Prisioneiros de uma força invisível, ficariam retidos em suas cavernas
por seis anos, sendo depois visitados pelo fogo do juízo que os
destruiria juntamente com as cidades que a eles se aliaram.

A História de Salém

Capitulo XIII

Ao ir para a cama depois daquele dia de tantas emoções, o jovem rei,
imerso nas lembranças daquele passado de felicidade e dor, rolava em sua
cama insone. Quando finalmente adormeceu, teve um sonho muito
significativo.

No sonho, apareceu-lhe um anjo luminoso, que saudou-o com um sorriso,
dizendo-lhe que todo o Universo acompanhava com atenção todo aquele
drama que estavam vivendo, que o mesmo tinha um sentido prefigurativo,
retratando acontecimentos passados e futuros, que envolvia todo o vasto
universo.

As palavras do anjo despertaram em Melquisedeque um grande desejo de
conhecer a história desse drama cósmico.

Conhecendo o seu anseio, o anjo arrebatou-o no sonho revelando-lhe um
distante futuro. Diante de seus olhos manifestaram-se as glórias de uma
nova e esplêndida Salém, cujas muralhas e mansões eram feitas de pedras
preciosas; Os portais da cidade eram de pérolas. Suas amplas avenidas
eram de ouro puro. A cidade era quadrangular e se estendia por centenas
de quilômetros. Estava dividida em dois setores distintos: Norte e Sul.
Ao Sul elevavam-se incontáveis mansões, habitações eternas de anjos e de
seres humanos redimidos; Ao Norte havia um lindo paraíso ao qual o anjo
revelou ser o jardim do Éden. Ali, em ambas as margens do rio da vida,
havia campos repletos de todo tipo de vegetação, com flores e frutos em
abundância. Viviam ali em perfeita harmonia, todas as espécies de
insetos, aves e animais.

No meio do paraíso podia-se ver uma montanha fulgurante, a qual o anjo
afirmou ser o monte Sião, o lugar do trono de Deus. Era daquele monte
que emanava o rio da vida, fluindo por toda a cidade.

Quando alcançaram o topo da montanha sagrada, o rei de Salém ficou
deslumbrado com o cenário visto ao seu redor. Encontrava-se na parte
mais elevada de Sião a mais
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